segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Poesia #52

Ciclos Eternos

Meus Eus
Se defrontam
Se agridem
Lutam entre si

Não há vencedores

Cansados e vencidos
Adormecem no ontem

Pra mais tarde
Unidos
Encontrar o outro
No Entre



     Dalva Tesainer Bonatto
Porto Alegre, 22 de agosto de 2014



quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Poesia #51

O sentido das coisas

As coisas
são o que são
no espaço a que pertencem

Objeto do mundo
Sem consciência
Sem alteridade
Um ser profundo

Opaco de si mesmo
É o que é
Absoluto
na plenitude do ser

Ser que é
Apenas é
Sem sentir
Ser Em-si


        Dalva Tesainer Bonatto
Porto Alegre, 06 de setembro de 2013



segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Texto poético #10

                            
  -Conto-                    
                              Joana

  Num apartamento de bairro de uma cidade do centro-oeste brasileiro, uma menina se arruma para ir à escola. O nome dela é Joana, tem oito anos e gosta muito toda vez que sua mãe a chama de manhã bem cedinho para levantar, pegar o transporte escolar e conversar com os colegas, antes de começar as aulas. Mas esta noite ela nem dormiu direito, ficou muito impressionada com uma notícia da TV do dia anterior. Só escutou o final, quando o repórter anunciou; “ Prefeito decreta estado de calamidade pública, por causa da enchente.”
 Todos os dias enquanto Joana se arruma o pai, de pé desde muito cedo, prepara o café. A mãe fica dando uma ajeitada na casa até a hora de saírem, pois os pais dela trabalham numa empresa a trinta quilômetros de distância de onde vivem. Esta manhã a mãe notou que a menina estava muito triste e perguntou-lhe o porquê da tristeza. A menina falou-lhe que enquanto todos em casa possuíam roupas quentes, comida e uma cama confortável, aquelas pessoas haviam perdido tudo, tamanha a quantidade de água que entrara em suas casas; com certeza estavam passando necessidades e precisavam de ajuda urgente. Informou-se e rapidamente ficou sabendo onde se localizava a cidade que estava debaixo d’água.
  Logo que chegou à escola, reuniu os amigos, contou-lhes o que havia visto na TV e também sobre seu plano de percorrer todas as salas de aula e pedir para os alunos trazerem mantimentos não perecíveis e roupas; estas poderiam ser usadas, mas deveriam estar bem limpas. Foi o que fizeram. Quanto mais pediam, mais recebiam. A campanha foi tão grande que conseguiram arrecadar um caminhão cheio. Restava agora levar tudo para a cidade necessitada, a fim de que aquelas pessoas ficassem um pouco mais tranquilas. Pediram dispensa na escola e foram, junto com os pais, em seus próprios carros, enquanto o caminhão os seguia. De vez em quando paravam por um determinado tempo para esticar as pernas, pois a distância era longa e ao chegarem queriam estar bem dispostos para distribuir tudo que levaram.
 Quando já estavam próximos, passaram por uma pequena ponte, embaixo da qual corria um riacho de cor vermelho forte. Estranharam a cor, mas seguiram em frente. Ainda iam parar mais uma vez, antes de chegar; então saberiam o que estava acontecendo. Contudo, Joana que além de muito inteligente era uma menina curiosa, não parava de observar o riacho. De repente, viu uma tábua com dois gatos equilibrando-se sobre a mesma e pediu para o pai parar o carro imediatamente para salvá-los. Foi difícil, mas conseguiram. A menina secou-os e prometeu a si mesma entregá-los ao dono, quando chegassem à cidade. De longe avistaram o arvoredo próximo a entrada do local onde entregariam os mantimentos; chovia muito forte naquele momento. O motorista do caminhão se atrapalhou, por causa das ruas cheias de água e se perdeu no caminho. Os carros dos pais então pararam num posto de combustível, para dar uma trégua na tensão provocada por toda aquela situação. As crianças tagarelavam o tempo todo, preocupadas com a cor do riacho, do rio e de toda aquela água que tomou conta das ruas, deixando a cidade e os carros tingidos de vermelho. O que estaria acontecendo, pensavam eles; na certa havia morrido muita gente. Por sorte, o local onde estavam era mais alto e a água não chegava até lá. Os atendentes avisaram que não poderiam chegar ao local mais atingido pela enchente, mas todos estavam dispostos a entregar pessoalmente o que haviam trazido. Neste momento o caminhão chegou e o motorista ficou feliz de encontrá-los. Por sua vez, contou-lhes que tinha visto um barquinho de papel vindo pela rua ao lado de onde estavam. Todos entenderam aquilo como um pedido de socorro e se dirigiram rapidamente para o Ginásio de Esportes da cidade e que agora servia de abrigo. Na chegada, foram recepcionados com aplausos e, com satisfação, entregaram toda a valiosa carga. Já estavam se retirando, quando Joana se lembrou dos gatinhos e foi buscá-los. No mesmo instante que chegava de volta, entrava no Ginásio, pela porta lateral, um menino com toda sua família. Viu-a e correu para ela dizendo que os pequenos eram dele e que os havia perdido, enquanto tentava salvar outros animais do sítio onde moravam. A menina entregou os gatinhos, contente por saber que estariam bem cuidados, agora com seu dono.
  Precisavam voltar, visto que já haviam distribuído tudo. Resolveram seguir pelo caminho, que margeava o rio, do lado oposto ao da enchente, pois era mais alto e assim não ficariam com os carros atolados, conforme haviam explicado no abrigo. Observaram o rio: então entenderam aquela cor vermelha da água que corria pelas ruas. Com as chuvas intensas, os morros que rodeavam a cidade, desmoronaram, levando argila vermelha para dentro do rio dando-lhe aquela cor e por isto era chamado de Rio Vermelho. Já haviam rodado alguns quilômetros e estavam próximos da rodovia, mas ainda às margens do rio, quando avistaram um barco de madeira que navegava solto e vazio, tendo apenas um livro como tripulante; aproximaram-se e surpresos viram que o livro, salvo da enchente como por um milagre, era o livro mais lido em todos os tempos: A Bíblia.



                                                     Dalva Tesainer Bonatto
                                             Porto Alegre, 18 de junho de 2013
                                                               

                                                                

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Poesia #50

         

            Sentimentos
        
                                    
  No silêncio do meu interior
  Há uma terra fértil
  Que cultiva sentimentos
  Pra produzir poesias 
  Quando as palavras brotam
  Precisam sair 
  Desabrochar
  Enquanto não explodem
  Elas me doem
  Não é preciso que se tornem
  um bom vinho
  Para mim basta
  que sejam água!




          Dalva Tesainer Bonatto
       Porto Alegre, 19 de abril de 2005.
















quinta-feira, 31 de julho de 2014

Poesia #49

Ler

Abrir um livro
Pra ler
É como entrar numa floresta
Não sei,
Que bichos vou encontrar
Se vão me morder
Ou se vão me encantar
Não sei,
Se as feras soltas em mim
Vão saltar para o livro
E lutar
Não sei quem vai perder
Não sei quem vai ganhar
Mas o tempo
Esse bicho perdido
Vou achar


  Dalva Tesainer Bonatto
Porto Alegre, 30 de outubro de 2011


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Poesia #48

Reinvenção

REVISO as peças
Do quebra-cabeças
Encaixes perfeitos
REJUNTES sem frestas
Passagens estreitas
Arestas
Tento teoremas
Fórmulas químicas
Força centrífuga
Chaves polidas
Rios
REORGANIZO gavetas
Não mais em ordem alfabética
Sem taxionomia
Giro
REINVENTO a vida


                                                    Dalva Tesainer Bonatto
                                                      Porto Alegre, 27 de setembro de 2008

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Poesia #47

Gratidão
Na semana em que se comemora a Amizade, agradeço a todos que acessam meu blog.
Aos amigos que conheço e estão perto e aos amigos de longe, que sinalizam seus países no momento de suas leituras.
Aos amigos do Brasil.
Aos amigos da África do Sul, Alemanha, Bulgária, Chile, China, Espanha, Estados Unidos, Indonésia, Irlanda, Malásia, Portugal, Rússia, Ucrânia.
Aos poetas

Um grande abraço, com poesias e flores
           Dalva



        Friends

Nos dias de inverno frio
Da minha Terra gelada
Que fica na ponta do mapa
Se veste de branco a estrada
O minuano irritado
Encilha o cavalo alado
E anda longe, longe, longe
Mesmo sem ser convidado
Passa pelos telhados
E leva sempre emprestado
Uma roupa do varal
Desarruma os cabelos da floresta
E acha uma bela fresta
Pra entrar na minha janela
Ensaia uma sinfonia
E garante que qualquer dia
Vai tocar no carnaval
Já até pediu emprestado
A fantasia da chuva
Que sai de braços dados
Junto a um raio de sol
Mas o que me encanta mesmo
Na gelada Terra minha
É o calor que sempre tenho
Do fogo que não desdenho
Das mãos que tocam fadigas
Das bocas que falam cantigas
Nas rodas de chimarrão
Do verbo que evoca línguas
E nutre a alma de pão

                        Dalva Tesainer Bonattro
                  Porto Alegre, 16 de julho de 2014






quarta-feira, 9 de julho de 2014

Poesia #46



             MÃE
                   Para Miracy

Senti que o tempo com tempo
E, pincel artesanal
Pintou rugas no teu rosto
Marcas de bem e não mal

Nas montanhas elevadas
Onde o sol bate mais forte
Há cicatrizes amargas
Que não esqueces com a morte

 Nos rios que passam abaixo
Dessas montanhas caladas
A água é límpida e fresca
E a vida floresce do nada

No crepúsculo de teus olhos
Ainda tens a beleza
E, quando o espelho me olha
Vê teus olhos com certeza

Desenhada e bem formada
Tua boca pequena
Não foi não por mim roubada
Mas por tua neta amada

Dentre todas estas marcas
Que o tempo pintou na tela
Abriu ele uma janela
E, pude ver-te por dentro
Então percebi, que talento!

Espiei teus sentimentos
Olhei de perto teu coração
Empurrei tua saudade
Pra junto da minha mão

E agora que te conheço
Pelo lado inverso de fora
Sou como tu na metade
Do tempo que tens agora

        Para minha querida mãe, com amor e carinho,
        no seu aniversário de noventa anos.

                                    Dalva Tesainer Bonatto
                            Porto Alegre, 09 de julho de 2014






segunda-feira, 30 de junho de 2014

Poesia #45

                  IMAGEM



                       Sou vida.
Percorro tuas entranhas,
bebo teu sangue,
E, por osmose,
tuas emoções.
Pulso.
Sou energia.
Presença;
Me basto.
Centelha divina,
flutuo no templo escuro.
Aqui, sou rei
espero o tempo.
Pela fresta da tua janela,
percebo luz.
Por instinto,
seguro a ponte gelada,
que me dará o sol.
Quero ir,
mas...o tempo foge.
Quero ser,
mas...estou.
Preciso...
tua força infinita,
tua coragem bendita.
Preciso chorar!

                                         Dalva Tesainer Bonatto
                                                Poa, 19 de setembro de 2003


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Poesia #44

Theo

           Para meu segundo príncipe


Quando o outono chegar
E folhas caídas dourar
Terás a força vital
Pra romper a ponte d’água
E gritar

Guerreiro de muitas batalhas
Da Ordem Divina Imortal
Abre um caminho no mundo
Com a Espada Celestial

Brilha com sabedoria
E toda fé de criança
Usa as armas do espirito
Pra trazer a esperança

Com a lei do poder na mão
E um escudo de perdão
Conta a verdade da vida
Pra todos que aqui estão

Na terra de muitas guerras
Tua meta é o infinito

Serás forte
Inteligente
Um deus grego
Lá do Norte

Traz luz
Na forma de cruz
Canta Paz
No nome que traz!




           Vovó Dalva
    Dalva Tesainer Bonatto
Porto Alegre,13 de junho de 2014








quinta-feira, 5 de junho de 2014

Poesia #43

Espiritualidade


Ando pelo tempo
Em busca do eu profundo
Procuro o elo
que liga corpo e alma
que eterniza o ser no espaço
Quero a luz do candeeiro
Sensível, límpida
Harmoniosa e perfeita
Encontro-a tênue
alumiando o caminho
Ao longe, vislumbro o rio
Mas, ainda
procuro a ponte


Dalva Tesainer Bonatto
Porto Alegre, 28 de abril de 2014



quarta-feira, 28 de maio de 2014

Texto poético #9


                        O jantar dançante


 O grupo entrou fazendo algazarra e contando estórias de viagens, alguns já haviam bebido além da conta e riam alegremente, cortando o clima romântico do ambiente. Uma suave melodia pairava no ar, como se as notas musicais fossem pequenos flocos de algodão envolvendo as pessoas. Do alto do décimo segundo andar observei a cidade iluminada com letreiros coloridos, onde as propagandas riscavam os prédios de cima a baixo, apelando num consumo exagerado. O local estava na penumbra e havia um leve perfume de temperos, que deslizava pela porta entreaberta da cozinha, aguçando ainda mais nossos sentidos. A cozinha funcionava na parte central do restaurante, numa espécie de aquário gigante sobre um suporte circular; arrumadas com cuidado, as mesas de mogno escuro estavam dispostas ao redor dela e o grupo todo se acomodou preguiçosamente como se estivesse em casa. Os garçons flutuavam por entre os clientes, como garças brancas sobrevoando o banhado num final de tarde, servindo petiscos e anotando, atenciosos, os vinhos escolhidos na carta principal. A seguir viriam os pratos com frutos do mar, verdadeiras obras de arte que o metre enviava da cozinha com respeitosas saudações de boas vindas.

 Era março de dois mil e cinco e visitávamos pela primeira vez Santiago do Chile.

  A bela mulher, com expressão intrigante no olhar, atravessou o salão e todos se voltaram para vê-la. Mini-saia preta, blusa de paetê amarelo ouro, sapatos de salto alto pretos, o que a tornava mais alta do que a maioria dos mortais ali presentes e fazia com que se locomovesse com uma graça sensual, por entre as mesas. Champanhe, brindes risadas, conversas novas e antigas, o grupo se divertia ao som do piano como pano de fundo. Perdi de vista, a mulher de mini-saia, mas, ela reapareceu ao lado do pianista cantando uma música de Mercedes Sosa. Num vai e vem constante a voz se aproximava e se afastava, abafada, às vezes, rouca e triste noutras, como se houvesse um pequeno soluço escondido atrás dela. Algo profundo envolvia aqueles dois seres que alegravam as longas noites boêmias, mas que na intimidade permaneciam num silêncio vazio.           Observei-os, mas não consegui penetrar naquele mundo invisível que só a eles pertencia. E o tablado onde estávamos sentados, rodava, rodava, circundava lentamente o salão, assim como os planetas com movimentos imperceptíveis que só se fazem notar através das horas, passeiam uns por entre os outros. De repente, ouvi um longo e surdo estampido, que atingiu com força total os ouvidos dos visitantes.Louças quebraram-se na cozinha, todos ficaram atentos e a luz apagou.

 Num breve instante, o salão estava vazio e os pratos já servidos dançavam sobre as mesas.




                                                             Dalva Tesainer Bonatto

                                                  Porto Alegre, 18 de outubro de 2012


  


 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Poesia #42

              Tributo
                                         Nem todos os anjos tem asas, mas
                             alguns passam por nossas vidas para  nos ensinar a voar
                                                                                      Dalva

Por todos lugares que ando
Em todos momentos que vivo

Sinto a presença
Do abraço constante
Do carinho vibrante
Da alegria contagiante

É uma ausência presente
De um presente sem flor
É uma força disforme
De um ser já sem cor

É um balanço de passos
Que ninam o amor
É energia pulsante
Num espaço sem dor

É uma pena que voa
Pra agradecer
Ao Senhor


Um dia na minha infância, no quintal da casa dos plátanos, encontrei uma grande pena branca. Perguntei a meu pai como viera parar ali. Com paciência, ele explicou-me que, às vezes, os anjos deixam cair algumas penas quando passam próximos a terra, para que as pessoas saibam que eles existem.
É por isto que ainda acredito em anjos.

Para meu pai, cantando, onde estiver 


   Dalva Tesainer Bonatto
Porto Alegre, 11 de agosto de 2013





quinta-feira, 15 de maio de 2014

Poesia #41

DE MÃE PRA FILHO

Vejo o reflexo da mãe que fui
No espelho dos teus olhos
Quando embalas teu filho
Na hora do denguinho
Quando suspiras ao sabor
Do cheirinho dele, que é único
Quando te orgulhas
Do primeiro sorrisinho
Da primeira travessura
Das primeiras palavrinhas
Ma mamãe, pa papai
Sinto o espelho da mãe que fui
Quando teu filho chora de noite
E o afagas, com carinho
Pra acalmar o medo
Do pirata, da bruxa, dos sacis
Personagens das estórias contadas
Antes de dormir
Percebo a simplicidade da mãe que fui
Quando teu filho descobre
As primeiras letrinhas
O poder do lápis
Do super-herói
Da professorinha
E o ensinas, com paciência
E te vejo, voltar
E voltar outra vez
Quando escutas
Não compreendi
Sinto o conflito
No teu corpo inteiro
Quando teu filho pergunta
Pode? Por quê?
E tens que inserir no vocabulário
A palavra proibida
Pra compor as novas regras
Pais modernos, atentos na internet
Mas, nossos olhos quando se encontram
Soa alto, aquela música do Belchior
‘’ Apesar de termos feito
Tudo que fizemos,
Ainda somos os mesmos,
Ainda somos os mesmos,
COMO NOSSOS PAIS”

             Dalva Tesainer Bonatto
   Porto Alegre, 09 de maio de 2010
                                            



quinta-feira, 8 de maio de 2014

Texto Poético- Conto #8

                          As mães e os anjos                                                                                                                                                               
                                                              “Em todos os momentos da minha vida há uma mulher que me leva pela mão nas trevas de uma realidade que as mulheres conhecem melhor que os homens e nas quais se orientam melhor com menos luzes.”
                                                                        Gabriel Garcia Márquez- Cheiro de goiaba

  No tempo da minha vó, quando as mulheres estavam grávidas, diziam às crianças que a cegonha, uma ave de penas brancas e bico rosado era quem trazia o bebê, descendo das nuvens; havia uma grande fantasia que sombreava este evento. Elas escondiam as barrigas de tal forma que, até hoje, penso que nem mesmo elas percebiam a gestação. É claro, que havia um motivo para isto: a Igreja, que condenava todos os pecados, inclusive o da reprodução. Eu mesma, na infância, também pensei assim, mas estas mesmas mulheres não queriam tal ignorância para seus filhos; então começou a ser desvendado o grande mistério da vida.
  Nasci às sete e meia de um belo domingo de dezembro na casa dos plátanos. Vim ao mundo com o auxilio de uma parteira como todas as crianças que nasceram naquela época e moravam no mesmo bairro.Para minha mãe foi muito difícil saber que estava grávida pela segunda vez, já que sou a filha do meio e ela teve uma experiência muito forte, no parto de meu irmão, que demorou para nascer. Durante todo o tempo, em que me esperava, ela chorou.Chorou tanto, que até acho que a primeira coisa que aprendi no mundo aquático onde vivia, foi chorar.Com o passar dos anos, ela percebeu a grandeza de ter um filho e ainda deu a luz à minha irmã.
  Minha mãe nasceu numa pequena cidade do interior, que mesmo agora com o progresso, ainda guarda os encantos daquela época. Trabalhou muito durante toda sua vida para, junto com meu pai, nos proporcionar condições melhores das que tiveram. Hoje, não é diferente, os pais sempre querem o melhor para os filhos, embora eles não saibam naquele momento; só saberão quando tiverem os seus próprios. Meus pais casaram jovens e ficaram juntos quase setenta anos. Minha mãe sempre leu muito e, com isto, entendeu que precisava trabalhar menos e dar mais atenção à família, ainda hoje ela lê o jornal. Por ser muito católica, sempre nos contou as histórias da Bíblia e fazia-nos rezar antes de dormir; coisas que aprendeu no colégio de freiras onde estudou e é de lá que ela guarda as melhores lembranças. Há muito ela não escuta bem, mas só agora é que soubemos disto. Muitas vezes, quando jovens, falávamos com ela e não tínhamos respostas.Minha irmã que desde cedo aprendeu a se defender dos bullings, pois sempre usou óculos, dizia que ela estava viajando. De noite, junto com meu pai, ela sempre rezava; ele nunca foi muito cristão, mas de tanto ela insistir, rezava também; não queria mais argumentar nem contestar.
  Hoje ela está com noventa anos e gosta de sentar num banco, debaixo da Buganville cor de rosa onde todas manhãs lê e faz crochê.Às vezes olho para ela, e sinto que está quietinha, parada no espaço, então pergunto no que está pensando e ela me diz que está rezando e me enumera todas pessoas que pediram suas preces. Até eu, algumas vezes, talvez por não ter muita fé, peço a ela que me inclua nas orações. Ela sempre sabe boas novas, daqueles pelos quais rezou, tenho certeza, que isto é que faz com que acredite mais e mais em Deus. Mas acho também que, à medida que se envelhece, a gente vai subindo uma escada cada vez mais alta, ficando assim mais perto dos anjos, pois são eles que levam notícias daqui da terra para todos os cantos do universo. Levam as preces das mães também.
 Qualquer dia minha mãe vira anjo e vai fazer crochê lá no céu.

                                            Dalva Tesainer Bonatto
                                           Porto Alegre, 08 de maio de 2014


segunda-feira, 5 de maio de 2014

Poesia #40

Auto-ajuda

Cada vez
Que subo a escada
E tropeço
E dói
Sei que devo ir devagar
Pra contar os degraus
E compreender
De que foram feitos
E  quanto precisaram
Pra ser escada
Cada vez que chove
E na rua deserta
De musgo molhado
Escorrego
Sei que devo ir devagar
Pra olhar o chão
E compreender
O caminho e as pedras
Cada vez que escalo o muro
Tentando pegar
A mais bela flor
E deslizo no espinho
Sei que devo ouvir meu som
E compreender
Os sentimentos
E transformá-los
Cada vez
Que ultrapasso os limites
E tropeço, escorrego, deslizo
E caio
Me dou  conta
Que devo parar
E cuidar de mim

 
                     Dalva Tesainer  Bonatto
                     Porto Alegre, 26 de abril de 2010





sábado, 26 de abril de 2014

Poesia #39

Carla

       Para Carlinha, com amor, num dia muito especial

De olhos mui pretos
Rosada e fofinha
Nasceu num verão
A linda Carlinha
Por mais indeciso
Que alguém estivesse
Ela sabia:
o que quer que fizesse
Pequena ainda
Olhava o relógio
E, num grito a galope
Chamava a empregada
Sueí o xaópe!
Um dia foi ao dentista,
Nem sabia, certo falar
Queria ser odonto...
Odonto o quê?odontologista.
Brincou de panelinhas,
Cortou muitas roupinhas
E, cantava a Carlinha!
Olhava  Xuxa na TV
E, queria ser paquita
Aprendeu até balé.
Andou de patins,
Bicicleta e patinete.
Comeu todos os chicletes,
Guardados lá no armário.
Na festa da primavera
Com fitas, balões e charmosa
Andava a menina bem prosa
Sobre o carro cor de rosa.
Quando foi pro Alabama
Cedinho saiu da cama,
Pra chegar no avião.


Foi ver, como os astronautas
Sentiam a lua na mão.
E, liderava a Carlinha!
Um dia, adormeceu com o ursinho
E, acordou com o coração
Que dizia um carinho.
Se apaixonou a menina.
Sensível e sorridente
Mas,  parecia vertente
Toda vez que ela chorava.
E, chorava a Carlinha!
Curtiu todas as festas,
Aniversários, pagodes.
Entrou para a faculdade,
Sabia o quanto custava.
E, estudava a Carlinha!
Se formou, foi adiante,
Andou por tudo, o bastante.
Achou o que procurava.
Com olhos pretos brilhantes,
E aquele sorriso aberto,
Que há tempos  não se via,
Encontro aquela Guia,
Esperando a lotação.
Não ia de carro não!
Sabia o que fazia,
Sorriu com satisfação.
Vou  tratar dente de gente,
Vou trabalhar minha tia!

Um beijo da tia.                                
Dalva Tesainer Bonatto
Porto Alegre,03/10/04
                           




        

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Poesia #38

Para o santo guerreiro


Quero a pureza da lua
Que senti ainda crua
Num dia de céu aberto
Quero vê-la sempre nua
Com manto todo prateado
Porque sei que lá
Por certo
Na sombra da escuridão
Há um guerreiro escondido
Pra libertar meu dragão

     Salve, Jorge!

          Dalva Tesainer Bonatto

        Porto Alegre, 23 de abril de 2013

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Poesia #37

ANDES

Hoje te reverencio, para que sejas eterna assim como tua neve em mim!
Sexta-feira Santa, Jesus morre para renascer a qualquer momento em nossos corações.
                                             Dalva
Pelo teu corpo,
vi todas as impressões
das mãos que te esculpiram.
Tuas artérias,
vazias de sangue cristalino,
revelaram-me tua nudez
seca e árida de pão.
Tuas saliências
plasmaram-se em meu espírito,
e tive paz!
Meu sangue,
não mais era meu.
Tua água
escorria pelos meus dedos,
mas não mais te pertencia.
Num encontro único,
Sublime,
Imortal,
De corpo e alma.
Tatuei pra sempre,
No teu ventre rasgado,
Meu DNA
Ainda molhado!

                                Dalva Tesainer Bonatto

                    Santiago do Chile, 23 de março de 2005    





segunda-feira, 14 de abril de 2014

Poesia #36

Caminhos

Foram tantas as esquinas
Pelas quais passei
Tantos foram os caminhos
Que atravessei
Que nem na pedra
Nem na terra
TE encontrei
Foram tantas as viagens
Que até cansei
Mas nem assim
TE encontrei
Tantos foram os lugares
Que procurei
Que até nem sei
por onde andei
E de repente
Quando o sonho
Parecia acabado
E a vida cheia de imprevistos
Passeando assim
Lado a lado
Te coloca na minha frente
No meu caminho encantado
Descubro então
O poder da TUA presença
A vibração da TUA energia
Descubro TEU ser
És a luz
Que ilumina meu espaço
A força
Que solidifica tudo que faço
A noite, o dia a sorte
A vida,
A morte!
                                 Dalva Tesainer Bonatto
                       Porto Alegre,15 de junho de 1994


                                    

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Poesia #35

Coisas
       “Gosto de ficar na sombra das coisas
              no segredo delas, gosto
              Adomis- poeta árabe-81 anos-

Espio pelas janelas
pelas portas abertas
debaixo de escadas ocultas
na sombra das mesas
Entro em portões fechados
Procuro a essência
das coisas perdidas

Encontro encantos
de mistérios antigos
no bule de chá
na xícara de café
na bandeja desbotada
na cama desfeita

Descubro
Segredos guardados
das coisas em si


            Dalva Tesainer Bonatto
  Porto Alegre, 13 de setembro de 2013
         


quinta-feira, 3 de abril de 2014

Texto poético- Conto #7

                                 Brilho
                                                                 Para meu filho 


  Estava ali, estacionada numa pequena prateleira de canto, no alto da sala. Só saía de vez em quando, no verão, para receber um polimento e nesta época ela resplandecia todo o brilho do sol na sua própria luminosidade. Na imponência daquele altar, contava sua estória. Tinha algumas inscrições, já desgastadas pelo tempo, mas isto não tinha a menor importância. Do lado direito e abaixo de onde estava, abria-se uma janela de cor marrom, que mais servia para apoiar os pés do que para arejar a casa. Também no alto e ao lado, pequenos peixinhos acinzentados nadavam, cristalizados na parede branca.
  O jogo de futebol era animado, no campo de grama fresca e verdejante, e os meninos corriam atrás da bola como se ela fosse a última que seus pés sentiriam. Queriam o gol: brasileiros e argentinos, numa interminável copa do mundo. O time que ganhasse podia fazer a volta no quarteirão, exibindo o mais belo troféu das redondezas.
  Nesses momentos ela brilhava ainda mais e só voltava para o seu lugar depois de passar pelas mãos dos vencedores. Não pertencia a ninguém, mas era de todos ao mesmo tempo. A única exigência que o dono da casa fazia era de que ela fosse colocada sobre a prateleira, quando o campeonato terminasse.
 E assim se passaram muitas temporadas.

  Karl era recém casado, mas não deixava de lado seu esporte favorito: o basquete. Quando sua esposa abriu a porta, viu logo que ele estava mancando. Tinha torcido um dos dedos do pé num grande salto para arremessar a bola em direção à cesta. Deixou que ele se movimentasse lentamente apoiando-se no balcão que dava para a cozinha e contasse o que havia acontecido. Karl falava sem parar, explicando o motivo do machucado; a esposa ouvia paciente enquanto tirava, do interior da maleta, as roupas suadas que ele usara no jogo e que envolviam um objeto de metal, cor de ouro, com aspecto arredondado, que possuía uma tampa com finas hastes de folhas de louro na parte superior. Na base estava escrito: “Campeões de basquete-ball do Clube dos Cem”.
 Abaixo de tudo, a data que conferia a grandeza atemporal da taça: Fevereiro de 1930.


                               Porto Alegre, 28 de março de 2014
                                        Dalva Tesainer Bonatto