quarta-feira, 28 de maio de 2014

Texto poético #9


                        O jantar dançante


 O grupo entrou fazendo algazarra e contando estórias de viagens, alguns já haviam bebido além da conta e riam alegremente, cortando o clima romântico do ambiente. Uma suave melodia pairava no ar, como se as notas musicais fossem pequenos flocos de algodão envolvendo as pessoas. Do alto do décimo segundo andar observei a cidade iluminada com letreiros coloridos, onde as propagandas riscavam os prédios de cima a baixo, apelando num consumo exagerado. O local estava na penumbra e havia um leve perfume de temperos, que deslizava pela porta entreaberta da cozinha, aguçando ainda mais nossos sentidos. A cozinha funcionava na parte central do restaurante, numa espécie de aquário gigante sobre um suporte circular; arrumadas com cuidado, as mesas de mogno escuro estavam dispostas ao redor dela e o grupo todo se acomodou preguiçosamente como se estivesse em casa. Os garçons flutuavam por entre os clientes, como garças brancas sobrevoando o banhado num final de tarde, servindo petiscos e anotando, atenciosos, os vinhos escolhidos na carta principal. A seguir viriam os pratos com frutos do mar, verdadeiras obras de arte que o metre enviava da cozinha com respeitosas saudações de boas vindas.

 Era março de dois mil e cinco e visitávamos pela primeira vez Santiago do Chile.

  A bela mulher, com expressão intrigante no olhar, atravessou o salão e todos se voltaram para vê-la. Mini-saia preta, blusa de paetê amarelo ouro, sapatos de salto alto pretos, o que a tornava mais alta do que a maioria dos mortais ali presentes e fazia com que se locomovesse com uma graça sensual, por entre as mesas. Champanhe, brindes risadas, conversas novas e antigas, o grupo se divertia ao som do piano como pano de fundo. Perdi de vista, a mulher de mini-saia, mas, ela reapareceu ao lado do pianista cantando uma música de Mercedes Sosa. Num vai e vem constante a voz se aproximava e se afastava, abafada, às vezes, rouca e triste noutras, como se houvesse um pequeno soluço escondido atrás dela. Algo profundo envolvia aqueles dois seres que alegravam as longas noites boêmias, mas que na intimidade permaneciam num silêncio vazio.           Observei-os, mas não consegui penetrar naquele mundo invisível que só a eles pertencia. E o tablado onde estávamos sentados, rodava, rodava, circundava lentamente o salão, assim como os planetas com movimentos imperceptíveis que só se fazem notar através das horas, passeiam uns por entre os outros. De repente, ouvi um longo e surdo estampido, que atingiu com força total os ouvidos dos visitantes.Louças quebraram-se na cozinha, todos ficaram atentos e a luz apagou.

 Num breve instante, o salão estava vazio e os pratos já servidos dançavam sobre as mesas.




                                                             Dalva Tesainer Bonatto

                                                  Porto Alegre, 18 de outubro de 2012


  


 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Poesia #42

              Tributo
                                         Nem todos os anjos tem asas, mas
                             alguns passam por nossas vidas para  nos ensinar a voar
                                                                                      Dalva

Por todos lugares que ando
Em todos momentos que vivo

Sinto a presença
Do abraço constante
Do carinho vibrante
Da alegria contagiante

É uma ausência presente
De um presente sem flor
É uma força disforme
De um ser já sem cor

É um balanço de passos
Que ninam o amor
É energia pulsante
Num espaço sem dor

É uma pena que voa
Pra agradecer
Ao Senhor


Um dia na minha infância, no quintal da casa dos plátanos, encontrei uma grande pena branca. Perguntei a meu pai como viera parar ali. Com paciência, ele explicou-me que, às vezes, os anjos deixam cair algumas penas quando passam próximos a terra, para que as pessoas saibam que eles existem.
É por isto que ainda acredito em anjos.

Para meu pai, cantando, onde estiver 


   Dalva Tesainer Bonatto
Porto Alegre, 11 de agosto de 2013





quinta-feira, 15 de maio de 2014

Poesia #41

DE MÃE PRA FILHO

Vejo o reflexo da mãe que fui
No espelho dos teus olhos
Quando embalas teu filho
Na hora do denguinho
Quando suspiras ao sabor
Do cheirinho dele, que é único
Quando te orgulhas
Do primeiro sorrisinho
Da primeira travessura
Das primeiras palavrinhas
Ma mamãe, pa papai
Sinto o espelho da mãe que fui
Quando teu filho chora de noite
E o afagas, com carinho
Pra acalmar o medo
Do pirata, da bruxa, dos sacis
Personagens das estórias contadas
Antes de dormir
Percebo a simplicidade da mãe que fui
Quando teu filho descobre
As primeiras letrinhas
O poder do lápis
Do super-herói
Da professorinha
E o ensinas, com paciência
E te vejo, voltar
E voltar outra vez
Quando escutas
Não compreendi
Sinto o conflito
No teu corpo inteiro
Quando teu filho pergunta
Pode? Por quê?
E tens que inserir no vocabulário
A palavra proibida
Pra compor as novas regras
Pais modernos, atentos na internet
Mas, nossos olhos quando se encontram
Soa alto, aquela música do Belchior
‘’ Apesar de termos feito
Tudo que fizemos,
Ainda somos os mesmos,
Ainda somos os mesmos,
COMO NOSSOS PAIS”

             Dalva Tesainer Bonatto
   Porto Alegre, 09 de maio de 2010
                                            



quinta-feira, 8 de maio de 2014

Texto Poético- Conto #8

                          As mães e os anjos                                                                                                                                                               
                                                              “Em todos os momentos da minha vida há uma mulher que me leva pela mão nas trevas de uma realidade que as mulheres conhecem melhor que os homens e nas quais se orientam melhor com menos luzes.”
                                                                        Gabriel Garcia Márquez- Cheiro de goiaba

  No tempo da minha vó, quando as mulheres estavam grávidas, diziam às crianças que a cegonha, uma ave de penas brancas e bico rosado era quem trazia o bebê, descendo das nuvens; havia uma grande fantasia que sombreava este evento. Elas escondiam as barrigas de tal forma que, até hoje, penso que nem mesmo elas percebiam a gestação. É claro, que havia um motivo para isto: a Igreja, que condenava todos os pecados, inclusive o da reprodução. Eu mesma, na infância, também pensei assim, mas estas mesmas mulheres não queriam tal ignorância para seus filhos; então começou a ser desvendado o grande mistério da vida.
  Nasci às sete e meia de um belo domingo de dezembro na casa dos plátanos. Vim ao mundo com o auxilio de uma parteira como todas as crianças que nasceram naquela época e moravam no mesmo bairro.Para minha mãe foi muito difícil saber que estava grávida pela segunda vez, já que sou a filha do meio e ela teve uma experiência muito forte, no parto de meu irmão, que demorou para nascer. Durante todo o tempo, em que me esperava, ela chorou.Chorou tanto, que até acho que a primeira coisa que aprendi no mundo aquático onde vivia, foi chorar.Com o passar dos anos, ela percebeu a grandeza de ter um filho e ainda deu a luz à minha irmã.
  Minha mãe nasceu numa pequena cidade do interior, que mesmo agora com o progresso, ainda guarda os encantos daquela época. Trabalhou muito durante toda sua vida para, junto com meu pai, nos proporcionar condições melhores das que tiveram. Hoje, não é diferente, os pais sempre querem o melhor para os filhos, embora eles não saibam naquele momento; só saberão quando tiverem os seus próprios. Meus pais casaram jovens e ficaram juntos quase setenta anos. Minha mãe sempre leu muito e, com isto, entendeu que precisava trabalhar menos e dar mais atenção à família, ainda hoje ela lê o jornal. Por ser muito católica, sempre nos contou as histórias da Bíblia e fazia-nos rezar antes de dormir; coisas que aprendeu no colégio de freiras onde estudou e é de lá que ela guarda as melhores lembranças. Há muito ela não escuta bem, mas só agora é que soubemos disto. Muitas vezes, quando jovens, falávamos com ela e não tínhamos respostas.Minha irmã que desde cedo aprendeu a se defender dos bullings, pois sempre usou óculos, dizia que ela estava viajando. De noite, junto com meu pai, ela sempre rezava; ele nunca foi muito cristão, mas de tanto ela insistir, rezava também; não queria mais argumentar nem contestar.
  Hoje ela está com noventa anos e gosta de sentar num banco, debaixo da Buganville cor de rosa onde todas manhãs lê e faz crochê.Às vezes olho para ela, e sinto que está quietinha, parada no espaço, então pergunto no que está pensando e ela me diz que está rezando e me enumera todas pessoas que pediram suas preces. Até eu, algumas vezes, talvez por não ter muita fé, peço a ela que me inclua nas orações. Ela sempre sabe boas novas, daqueles pelos quais rezou, tenho certeza, que isto é que faz com que acredite mais e mais em Deus. Mas acho também que, à medida que se envelhece, a gente vai subindo uma escada cada vez mais alta, ficando assim mais perto dos anjos, pois são eles que levam notícias daqui da terra para todos os cantos do universo. Levam as preces das mães também.
 Qualquer dia minha mãe vira anjo e vai fazer crochê lá no céu.

                                            Dalva Tesainer Bonatto
                                           Porto Alegre, 08 de maio de 2014


segunda-feira, 5 de maio de 2014

Poesia #40

Auto-ajuda

Cada vez
Que subo a escada
E tropeço
E dói
Sei que devo ir devagar
Pra contar os degraus
E compreender
De que foram feitos
E  quanto precisaram
Pra ser escada
Cada vez que chove
E na rua deserta
De musgo molhado
Escorrego
Sei que devo ir devagar
Pra olhar o chão
E compreender
O caminho e as pedras
Cada vez que escalo o muro
Tentando pegar
A mais bela flor
E deslizo no espinho
Sei que devo ouvir meu som
E compreender
Os sentimentos
E transformá-los
Cada vez
Que ultrapasso os limites
E tropeço, escorrego, deslizo
E caio
Me dou  conta
Que devo parar
E cuidar de mim

 
                     Dalva Tesainer  Bonatto
                     Porto Alegre, 26 de abril de 2010