O jantar dançante
O grupo entrou fazendo
algazarra e contando estórias de viagens, alguns já haviam bebido além da conta
e riam alegremente, cortando o clima romântico do ambiente. Uma suave melodia
pairava no ar, como se as notas musicais fossem pequenos flocos de algodão
envolvendo as pessoas. Do alto do décimo segundo andar observei a cidade
iluminada com letreiros coloridos, onde as propagandas riscavam os prédios de
cima a baixo, apelando num consumo exagerado. O local estava na penumbra e
havia um leve perfume de temperos, que deslizava pela porta entreaberta da
cozinha, aguçando ainda mais nossos sentidos. A cozinha funcionava na parte
central do restaurante, numa espécie de aquário gigante sobre um suporte
circular; arrumadas com cuidado, as mesas de mogno escuro estavam dispostas ao
redor dela e o grupo todo se acomodou preguiçosamente como se estivesse em casa. Os garçons
flutuavam por entre os clientes, como garças brancas sobrevoando o banhado num
final de tarde, servindo petiscos e anotando, atenciosos, os vinhos escolhidos
na carta principal. A seguir viriam os pratos com frutos do mar, verdadeiras
obras de arte que o metre enviava da cozinha com respeitosas saudações de boas
vindas.
Era março de dois mil e
cinco e visitávamos pela primeira vez Santiago do Chile.
A bela mulher, com expressão intrigante no
olhar, atravessou o salão e todos se voltaram para vê-la. Mini-saia preta,
blusa de paetê amarelo ouro, sapatos de salto alto pretos, o que a tornava mais
alta do que a maioria dos mortais ali presentes e fazia com que se locomovesse
com uma graça sensual, por entre as mesas. Champanhe, brindes risadas,
conversas novas e antigas, o grupo se divertia ao som do piano como pano de
fundo. Perdi de vista, a mulher de mini-saia, mas, ela reapareceu ao lado do
pianista cantando uma música de Mercedes Sosa. Num vai e vem constante a voz se
aproximava e se afastava, abafada, às vezes, rouca e triste noutras, como se
houvesse um pequeno soluço escondido atrás dela. Algo profundo envolvia aqueles
dois seres que alegravam as longas noites boêmias, mas que na intimidade
permaneciam num silêncio vazio. Observei-os, mas não consegui
penetrar naquele mundo invisível que só a eles pertencia. E o tablado onde
estávamos sentados, rodava, rodava, circundava lentamente o salão, assim como
os planetas com movimentos imperceptíveis que só se fazem notar através das
horas, passeiam uns por entre os outros. De repente, ouvi um longo e surdo
estampido, que atingiu com força total os ouvidos dos visitantes.Louças
quebraram-se na cozinha, todos ficaram atentos e a luz apagou.
Num breve instante, o
salão estava vazio e os pratos já servidos dançavam sobre as mesas.
Dalva Tesainer Bonatto
Porto Alegre, 18 de outubro de 2012