quinta-feira, 8 de maio de 2014

Texto Poético- Conto #8

                          As mães e os anjos                                                                                                                                                               
                                                              “Em todos os momentos da minha vida há uma mulher que me leva pela mão nas trevas de uma realidade que as mulheres conhecem melhor que os homens e nas quais se orientam melhor com menos luzes.”
                                                                        Gabriel Garcia Márquez- Cheiro de goiaba

  No tempo da minha vó, quando as mulheres estavam grávidas, diziam às crianças que a cegonha, uma ave de penas brancas e bico rosado era quem trazia o bebê, descendo das nuvens; havia uma grande fantasia que sombreava este evento. Elas escondiam as barrigas de tal forma que, até hoje, penso que nem mesmo elas percebiam a gestação. É claro, que havia um motivo para isto: a Igreja, que condenava todos os pecados, inclusive o da reprodução. Eu mesma, na infância, também pensei assim, mas estas mesmas mulheres não queriam tal ignorância para seus filhos; então começou a ser desvendado o grande mistério da vida.
  Nasci às sete e meia de um belo domingo de dezembro na casa dos plátanos. Vim ao mundo com o auxilio de uma parteira como todas as crianças que nasceram naquela época e moravam no mesmo bairro.Para minha mãe foi muito difícil saber que estava grávida pela segunda vez, já que sou a filha do meio e ela teve uma experiência muito forte, no parto de meu irmão, que demorou para nascer. Durante todo o tempo, em que me esperava, ela chorou.Chorou tanto, que até acho que a primeira coisa que aprendi no mundo aquático onde vivia, foi chorar.Com o passar dos anos, ela percebeu a grandeza de ter um filho e ainda deu a luz à minha irmã.
  Minha mãe nasceu numa pequena cidade do interior, que mesmo agora com o progresso, ainda guarda os encantos daquela época. Trabalhou muito durante toda sua vida para, junto com meu pai, nos proporcionar condições melhores das que tiveram. Hoje, não é diferente, os pais sempre querem o melhor para os filhos, embora eles não saibam naquele momento; só saberão quando tiverem os seus próprios. Meus pais casaram jovens e ficaram juntos quase setenta anos. Minha mãe sempre leu muito e, com isto, entendeu que precisava trabalhar menos e dar mais atenção à família, ainda hoje ela lê o jornal. Por ser muito católica, sempre nos contou as histórias da Bíblia e fazia-nos rezar antes de dormir; coisas que aprendeu no colégio de freiras onde estudou e é de lá que ela guarda as melhores lembranças. Há muito ela não escuta bem, mas só agora é que soubemos disto. Muitas vezes, quando jovens, falávamos com ela e não tínhamos respostas.Minha irmã que desde cedo aprendeu a se defender dos bullings, pois sempre usou óculos, dizia que ela estava viajando. De noite, junto com meu pai, ela sempre rezava; ele nunca foi muito cristão, mas de tanto ela insistir, rezava também; não queria mais argumentar nem contestar.
  Hoje ela está com noventa anos e gosta de sentar num banco, debaixo da Buganville cor de rosa onde todas manhãs lê e faz crochê.Às vezes olho para ela, e sinto que está quietinha, parada no espaço, então pergunto no que está pensando e ela me diz que está rezando e me enumera todas pessoas que pediram suas preces. Até eu, algumas vezes, talvez por não ter muita fé, peço a ela que me inclua nas orações. Ela sempre sabe boas novas, daqueles pelos quais rezou, tenho certeza, que isto é que faz com que acredite mais e mais em Deus. Mas acho também que, à medida que se envelhece, a gente vai subindo uma escada cada vez mais alta, ficando assim mais perto dos anjos, pois são eles que levam notícias daqui da terra para todos os cantos do universo. Levam as preces das mães também.
 Qualquer dia minha mãe vira anjo e vai fazer crochê lá no céu.

                                            Dalva Tesainer Bonatto
                                           Porto Alegre, 08 de maio de 2014