As mães e
os anjos
“Em
todos os momentos da minha vida há uma mulher que me leva pela mão nas trevas
de uma realidade que as mulheres conhecem melhor que os homens e nas quais se
orientam melhor com menos luzes.”
Gabriel
Garcia Márquez- Cheiro de goiaba
No tempo da minha vó, quando as mulheres
estavam grávidas, diziam às crianças que a cegonha, uma ave de penas brancas e
bico rosado era quem trazia o bebê, descendo das nuvens; havia uma grande
fantasia que sombreava este evento. Elas escondiam as barrigas de tal forma
que, até hoje, penso que nem mesmo elas percebiam a gestação. É claro, que
havia um motivo para isto: a Igreja, que condenava todos os pecados, inclusive
o da reprodução. Eu mesma, na infância, também pensei assim, mas estas mesmas
mulheres não queriam tal ignorância para seus filhos; então começou a ser
desvendado o grande mistério da vida.
Nasci às sete e meia de um belo domingo de
dezembro na casa dos plátanos. Vim ao mundo com o auxilio de uma parteira como todas
as crianças que nasceram naquela época e moravam no mesmo bairro.Para minha mãe
foi muito difícil saber que estava grávida pela segunda vez, já que sou a filha
do meio e ela teve uma experiência muito forte, no parto de meu irmão, que
demorou para nascer. Durante todo o tempo, em que me esperava, ela chorou.Chorou
tanto, que até acho que a primeira coisa que aprendi no mundo aquático onde
vivia, foi chorar.Com o passar dos anos, ela percebeu a grandeza de ter um
filho e ainda deu a luz à minha irmã.
Minha
mãe nasceu numa pequena cidade do interior, que mesmo agora com o progresso, ainda
guarda os encantos daquela época. Trabalhou muito durante toda sua vida para,
junto com meu pai, nos proporcionar condições melhores das que tiveram. Hoje,
não é diferente, os pais sempre querem o melhor para os filhos, embora eles não
saibam naquele momento; só saberão quando tiverem os seus próprios. Meus pais
casaram jovens e ficaram juntos quase setenta anos. Minha mãe sempre leu muito
e, com isto, entendeu que precisava trabalhar menos e dar mais atenção à família,
ainda hoje ela lê o jornal. Por ser muito católica, sempre nos contou as
histórias da Bíblia e fazia-nos rezar antes de dormir; coisas que aprendeu no
colégio de freiras onde estudou e é de lá que ela guarda as melhores
lembranças. Há muito ela não escuta bem, mas só agora é que soubemos disto. Muitas
vezes, quando jovens, falávamos com ela e não tínhamos respostas.Minha irmã que
desde cedo aprendeu a se defender dos bullings, pois sempre usou óculos, dizia
que ela estava viajando. De noite, junto com meu pai, ela sempre rezava; ele
nunca foi muito cristão, mas de tanto ela insistir, rezava também; não queria
mais argumentar nem contestar.
Hoje ela está com noventa anos e gosta de
sentar num banco, debaixo da Buganville cor de rosa onde todas manhãs lê e faz
crochê.Às vezes olho para ela, e sinto que está quietinha, parada no espaço,
então pergunto no que está pensando e ela me diz que está rezando e me enumera
todas pessoas que pediram suas preces. Até eu, algumas vezes, talvez por não
ter muita fé, peço a ela que me inclua nas orações. Ela sempre sabe boas novas,
daqueles pelos quais rezou, tenho certeza, que isto é que faz com que acredite
mais e mais em Deus. Mas acho também que, à medida que se envelhece, a gente
vai subindo uma escada cada vez mais alta, ficando assim mais perto dos anjos,
pois são eles que levam notícias daqui da terra para todos os cantos do
universo. Levam as preces das mães também.
Qualquer dia minha mãe vira anjo e vai fazer
crochê lá no céu.
Dalva
Tesainer Bonatto
Porto
Alegre, 08 de maio de 2014