quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Poesia #51

O sentido das coisas

As coisas
são o que são
no espaço a que pertencem

Objeto do mundo
Sem consciência
Sem alteridade
Um ser profundo

Opaco de si mesmo
É o que é
Absoluto
na plenitude do ser

Ser que é
Apenas é
Sem sentir
Ser Em-si


        Dalva Tesainer Bonatto
Porto Alegre, 06 de setembro de 2013



segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Texto poético #10

                            
  -Conto-                    
                              Joana

  Num apartamento de bairro de uma cidade do centro-oeste brasileiro, uma menina se arruma para ir à escola. O nome dela é Joana, tem oito anos e gosta muito toda vez que sua mãe a chama de manhã bem cedinho para levantar, pegar o transporte escolar e conversar com os colegas, antes de começar as aulas. Mas esta noite ela nem dormiu direito, ficou muito impressionada com uma notícia da TV do dia anterior. Só escutou o final, quando o repórter anunciou; “ Prefeito decreta estado de calamidade pública, por causa da enchente.”
 Todos os dias enquanto Joana se arruma o pai, de pé desde muito cedo, prepara o café. A mãe fica dando uma ajeitada na casa até a hora de saírem, pois os pais dela trabalham numa empresa a trinta quilômetros de distância de onde vivem. Esta manhã a mãe notou que a menina estava muito triste e perguntou-lhe o porquê da tristeza. A menina falou-lhe que enquanto todos em casa possuíam roupas quentes, comida e uma cama confortável, aquelas pessoas haviam perdido tudo, tamanha a quantidade de água que entrara em suas casas; com certeza estavam passando necessidades e precisavam de ajuda urgente. Informou-se e rapidamente ficou sabendo onde se localizava a cidade que estava debaixo d’água.
  Logo que chegou à escola, reuniu os amigos, contou-lhes o que havia visto na TV e também sobre seu plano de percorrer todas as salas de aula e pedir para os alunos trazerem mantimentos não perecíveis e roupas; estas poderiam ser usadas, mas deveriam estar bem limpas. Foi o que fizeram. Quanto mais pediam, mais recebiam. A campanha foi tão grande que conseguiram arrecadar um caminhão cheio. Restava agora levar tudo para a cidade necessitada, a fim de que aquelas pessoas ficassem um pouco mais tranquilas. Pediram dispensa na escola e foram, junto com os pais, em seus próprios carros, enquanto o caminhão os seguia. De vez em quando paravam por um determinado tempo para esticar as pernas, pois a distância era longa e ao chegarem queriam estar bem dispostos para distribuir tudo que levaram.
 Quando já estavam próximos, passaram por uma pequena ponte, embaixo da qual corria um riacho de cor vermelho forte. Estranharam a cor, mas seguiram em frente. Ainda iam parar mais uma vez, antes de chegar; então saberiam o que estava acontecendo. Contudo, Joana que além de muito inteligente era uma menina curiosa, não parava de observar o riacho. De repente, viu uma tábua com dois gatos equilibrando-se sobre a mesma e pediu para o pai parar o carro imediatamente para salvá-los. Foi difícil, mas conseguiram. A menina secou-os e prometeu a si mesma entregá-los ao dono, quando chegassem à cidade. De longe avistaram o arvoredo próximo a entrada do local onde entregariam os mantimentos; chovia muito forte naquele momento. O motorista do caminhão se atrapalhou, por causa das ruas cheias de água e se perdeu no caminho. Os carros dos pais então pararam num posto de combustível, para dar uma trégua na tensão provocada por toda aquela situação. As crianças tagarelavam o tempo todo, preocupadas com a cor do riacho, do rio e de toda aquela água que tomou conta das ruas, deixando a cidade e os carros tingidos de vermelho. O que estaria acontecendo, pensavam eles; na certa havia morrido muita gente. Por sorte, o local onde estavam era mais alto e a água não chegava até lá. Os atendentes avisaram que não poderiam chegar ao local mais atingido pela enchente, mas todos estavam dispostos a entregar pessoalmente o que haviam trazido. Neste momento o caminhão chegou e o motorista ficou feliz de encontrá-los. Por sua vez, contou-lhes que tinha visto um barquinho de papel vindo pela rua ao lado de onde estavam. Todos entenderam aquilo como um pedido de socorro e se dirigiram rapidamente para o Ginásio de Esportes da cidade e que agora servia de abrigo. Na chegada, foram recepcionados com aplausos e, com satisfação, entregaram toda a valiosa carga. Já estavam se retirando, quando Joana se lembrou dos gatinhos e foi buscá-los. No mesmo instante que chegava de volta, entrava no Ginásio, pela porta lateral, um menino com toda sua família. Viu-a e correu para ela dizendo que os pequenos eram dele e que os havia perdido, enquanto tentava salvar outros animais do sítio onde moravam. A menina entregou os gatinhos, contente por saber que estariam bem cuidados, agora com seu dono.
  Precisavam voltar, visto que já haviam distribuído tudo. Resolveram seguir pelo caminho, que margeava o rio, do lado oposto ao da enchente, pois era mais alto e assim não ficariam com os carros atolados, conforme haviam explicado no abrigo. Observaram o rio: então entenderam aquela cor vermelha da água que corria pelas ruas. Com as chuvas intensas, os morros que rodeavam a cidade, desmoronaram, levando argila vermelha para dentro do rio dando-lhe aquela cor e por isto era chamado de Rio Vermelho. Já haviam rodado alguns quilômetros e estavam próximos da rodovia, mas ainda às margens do rio, quando avistaram um barco de madeira que navegava solto e vazio, tendo apenas um livro como tripulante; aproximaram-se e surpresos viram que o livro, salvo da enchente como por um milagre, era o livro mais lido em todos os tempos: A Bíblia.



                                                     Dalva Tesainer Bonatto
                                             Porto Alegre, 18 de junho de 2013
                                                               

                                                                

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Poesia #50

         

            Sentimentos
        
                                    
  No silêncio do meu interior
  Há uma terra fértil
  Que cultiva sentimentos
  Pra produzir poesias 
  Quando as palavras brotam
  Precisam sair 
  Desabrochar
  Enquanto não explodem
  Elas me doem
  Não é preciso que se tornem
  um bom vinho
  Para mim basta
  que sejam água!




          Dalva Tesainer Bonatto
       Porto Alegre, 19 de abril de 2005.