-Conto-
Joana
Num apartamento de bairro de uma
cidade do centro-oeste brasileiro, uma menina se arruma para ir à escola. O
nome dela é Joana, tem oito anos e gosta muito toda vez que sua mãe a chama de
manhã bem cedinho para levantar, pegar o transporte escolar e conversar com os
colegas, antes de começar as aulas. Mas esta noite ela nem dormiu direito,
ficou muito impressionada com uma notícia da TV do dia anterior. Só escutou o
final, quando o repórter anunciou; “ Prefeito decreta estado de calamidade
pública, por causa da enchente.”
Todos os dias enquanto Joana se arruma o pai,
de pé desde muito cedo, prepara o café. A mãe fica dando uma ajeitada na casa
até a hora de saírem, pois os pais dela trabalham numa empresa a trinta quilômetros
de distância de onde vivem. Esta manhã a mãe notou que a menina estava muito
triste e perguntou-lhe o porquê da tristeza. A menina falou-lhe que enquanto
todos em casa possuíam roupas quentes, comida e uma cama confortável, aquelas
pessoas haviam perdido tudo, tamanha a quantidade de água que entrara em suas
casas; com certeza estavam passando necessidades e precisavam de ajuda urgente.
Informou-se e rapidamente ficou sabendo onde se localizava a cidade que estava
debaixo d’água.
Logo que chegou à escola, reuniu os amigos, contou-lhes o que havia
visto na TV e também sobre seu plano de percorrer todas as salas de aula e
pedir para os alunos trazerem mantimentos não perecíveis e roupas; estas
poderiam ser usadas, mas deveriam estar bem limpas. Foi o que fizeram. Quanto
mais pediam, mais recebiam. A campanha foi tão grande que conseguiram arrecadar
um caminhão cheio. Restava agora levar tudo para a cidade necessitada, a fim de
que aquelas pessoas ficassem um pouco mais tranquilas. Pediram dispensa na escola
e foram, junto com os pais, em seus próprios carros, enquanto o caminhão os
seguia. De vez em quando paravam por um determinado tempo para esticar as
pernas, pois a distância era longa e ao chegarem queriam estar bem dispostos
para distribuir tudo que levaram.
Quando já estavam próximos, passaram por uma
pequena ponte, embaixo da qual corria um riacho de cor vermelho forte.
Estranharam a cor, mas seguiram em frente. Ainda iam parar mais uma vez, antes de
chegar; então saberiam o que estava acontecendo. Contudo, Joana que além de
muito inteligente era uma menina curiosa, não parava de observar o riacho. De
repente, viu uma tábua com dois gatos equilibrando-se sobre a mesma e pediu
para o pai parar o carro imediatamente para salvá-los. Foi difícil, mas conseguiram.
A menina secou-os e prometeu a si mesma entregá-los ao dono, quando chegassem à
cidade. De longe avistaram o arvoredo próximo a entrada do local onde
entregariam os mantimentos; chovia muito forte naquele momento. O motorista do
caminhão se atrapalhou, por causa das ruas cheias de água e se perdeu no caminho.
Os carros dos pais então pararam num posto de combustível, para dar uma trégua
na tensão provocada por toda aquela situação. As crianças tagarelavam o tempo
todo, preocupadas com a cor do riacho, do rio e de toda aquela água que tomou
conta das ruas, deixando a cidade e os carros tingidos de vermelho. O que
estaria acontecendo, pensavam eles; na certa havia morrido muita gente. Por
sorte, o local onde estavam era mais alto e a água não chegava até lá. Os
atendentes avisaram que não poderiam chegar ao local mais atingido pela
enchente, mas todos estavam dispostos a entregar pessoalmente o que haviam
trazido. Neste momento o caminhão chegou e o motorista ficou feliz de
encontrá-los. Por sua vez, contou-lhes que tinha visto um barquinho de papel
vindo pela rua ao lado de onde estavam. Todos entenderam aquilo como um pedido
de socorro e se dirigiram rapidamente para o Ginásio de Esportes da cidade e
que agora servia de abrigo. Na chegada, foram recepcionados com aplausos e, com
satisfação, entregaram toda a valiosa carga. Já estavam se retirando, quando
Joana se lembrou dos gatinhos e foi buscá-los. No mesmo instante que chegava de
volta, entrava no Ginásio, pela porta lateral, um menino com toda sua família.
Viu-a e correu para ela dizendo que os pequenos eram dele e que os havia
perdido, enquanto tentava salvar outros animais do sítio onde moravam. A menina
entregou os gatinhos, contente por saber que estariam bem cuidados, agora com
seu dono.
Precisavam voltar, visto que já haviam distribuído
tudo. Resolveram seguir pelo caminho, que margeava o rio, do lado oposto ao da
enchente, pois era mais alto e assim não ficariam com os carros atolados,
conforme haviam explicado no abrigo. Observaram o rio: então entenderam aquela
cor vermelha da água que corria pelas ruas. Com as chuvas intensas, os morros
que rodeavam a cidade, desmoronaram, levando argila vermelha para dentro do rio
dando-lhe aquela cor e por isto era chamado de Rio Vermelho. Já haviam rodado
alguns quilômetros e estavam próximos da rodovia, mas ainda às margens do rio,
quando avistaram um barco de madeira que navegava solto e vazio, tendo apenas
um livro como tripulante; aproximaram-se e surpresos viram que o livro, salvo
da enchente como por um milagre, era o livro mais lido em todos os tempos: A
Bíblia.
Dalva Tesainer Bonatto
Porto Alegre, 18 de junho de 2013