segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Poesia #52

Ciclos Eternos

Meus Eus
Se defrontam
Se agridem
Lutam entre si

Não há vencedores

Cansados e vencidos
Adormecem no ontem

Pra mais tarde
Unidos
Encontrar o outro
No Entre



     Dalva Tesainer Bonatto
Porto Alegre, 22 de agosto de 2014



quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Poesia #51

O sentido das coisas

As coisas
são o que são
no espaço a que pertencem

Objeto do mundo
Sem consciência
Sem alteridade
Um ser profundo

Opaco de si mesmo
É o que é
Absoluto
na plenitude do ser

Ser que é
Apenas é
Sem sentir
Ser Em-si


        Dalva Tesainer Bonatto
Porto Alegre, 06 de setembro de 2013



segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Texto poético #10

                            
  -Conto-                    
                              Joana

  Num apartamento de bairro de uma cidade do centro-oeste brasileiro, uma menina se arruma para ir à escola. O nome dela é Joana, tem oito anos e gosta muito toda vez que sua mãe a chama de manhã bem cedinho para levantar, pegar o transporte escolar e conversar com os colegas, antes de começar as aulas. Mas esta noite ela nem dormiu direito, ficou muito impressionada com uma notícia da TV do dia anterior. Só escutou o final, quando o repórter anunciou; “ Prefeito decreta estado de calamidade pública, por causa da enchente.”
 Todos os dias enquanto Joana se arruma o pai, de pé desde muito cedo, prepara o café. A mãe fica dando uma ajeitada na casa até a hora de saírem, pois os pais dela trabalham numa empresa a trinta quilômetros de distância de onde vivem. Esta manhã a mãe notou que a menina estava muito triste e perguntou-lhe o porquê da tristeza. A menina falou-lhe que enquanto todos em casa possuíam roupas quentes, comida e uma cama confortável, aquelas pessoas haviam perdido tudo, tamanha a quantidade de água que entrara em suas casas; com certeza estavam passando necessidades e precisavam de ajuda urgente. Informou-se e rapidamente ficou sabendo onde se localizava a cidade que estava debaixo d’água.
  Logo que chegou à escola, reuniu os amigos, contou-lhes o que havia visto na TV e também sobre seu plano de percorrer todas as salas de aula e pedir para os alunos trazerem mantimentos não perecíveis e roupas; estas poderiam ser usadas, mas deveriam estar bem limpas. Foi o que fizeram. Quanto mais pediam, mais recebiam. A campanha foi tão grande que conseguiram arrecadar um caminhão cheio. Restava agora levar tudo para a cidade necessitada, a fim de que aquelas pessoas ficassem um pouco mais tranquilas. Pediram dispensa na escola e foram, junto com os pais, em seus próprios carros, enquanto o caminhão os seguia. De vez em quando paravam por um determinado tempo para esticar as pernas, pois a distância era longa e ao chegarem queriam estar bem dispostos para distribuir tudo que levaram.
 Quando já estavam próximos, passaram por uma pequena ponte, embaixo da qual corria um riacho de cor vermelho forte. Estranharam a cor, mas seguiram em frente. Ainda iam parar mais uma vez, antes de chegar; então saberiam o que estava acontecendo. Contudo, Joana que além de muito inteligente era uma menina curiosa, não parava de observar o riacho. De repente, viu uma tábua com dois gatos equilibrando-se sobre a mesma e pediu para o pai parar o carro imediatamente para salvá-los. Foi difícil, mas conseguiram. A menina secou-os e prometeu a si mesma entregá-los ao dono, quando chegassem à cidade. De longe avistaram o arvoredo próximo a entrada do local onde entregariam os mantimentos; chovia muito forte naquele momento. O motorista do caminhão se atrapalhou, por causa das ruas cheias de água e se perdeu no caminho. Os carros dos pais então pararam num posto de combustível, para dar uma trégua na tensão provocada por toda aquela situação. As crianças tagarelavam o tempo todo, preocupadas com a cor do riacho, do rio e de toda aquela água que tomou conta das ruas, deixando a cidade e os carros tingidos de vermelho. O que estaria acontecendo, pensavam eles; na certa havia morrido muita gente. Por sorte, o local onde estavam era mais alto e a água não chegava até lá. Os atendentes avisaram que não poderiam chegar ao local mais atingido pela enchente, mas todos estavam dispostos a entregar pessoalmente o que haviam trazido. Neste momento o caminhão chegou e o motorista ficou feliz de encontrá-los. Por sua vez, contou-lhes que tinha visto um barquinho de papel vindo pela rua ao lado de onde estavam. Todos entenderam aquilo como um pedido de socorro e se dirigiram rapidamente para o Ginásio de Esportes da cidade e que agora servia de abrigo. Na chegada, foram recepcionados com aplausos e, com satisfação, entregaram toda a valiosa carga. Já estavam se retirando, quando Joana se lembrou dos gatinhos e foi buscá-los. No mesmo instante que chegava de volta, entrava no Ginásio, pela porta lateral, um menino com toda sua família. Viu-a e correu para ela dizendo que os pequenos eram dele e que os havia perdido, enquanto tentava salvar outros animais do sítio onde moravam. A menina entregou os gatinhos, contente por saber que estariam bem cuidados, agora com seu dono.
  Precisavam voltar, visto que já haviam distribuído tudo. Resolveram seguir pelo caminho, que margeava o rio, do lado oposto ao da enchente, pois era mais alto e assim não ficariam com os carros atolados, conforme haviam explicado no abrigo. Observaram o rio: então entenderam aquela cor vermelha da água que corria pelas ruas. Com as chuvas intensas, os morros que rodeavam a cidade, desmoronaram, levando argila vermelha para dentro do rio dando-lhe aquela cor e por isto era chamado de Rio Vermelho. Já haviam rodado alguns quilômetros e estavam próximos da rodovia, mas ainda às margens do rio, quando avistaram um barco de madeira que navegava solto e vazio, tendo apenas um livro como tripulante; aproximaram-se e surpresos viram que o livro, salvo da enchente como por um milagre, era o livro mais lido em todos os tempos: A Bíblia.



                                                     Dalva Tesainer Bonatto
                                             Porto Alegre, 18 de junho de 2013
                                                               

                                                                

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Poesia #50

         

            Sentimentos
        
                                    
  No silêncio do meu interior
  Há uma terra fértil
  Que cultiva sentimentos
  Pra produzir poesias 
  Quando as palavras brotam
  Precisam sair 
  Desabrochar
  Enquanto não explodem
  Elas me doem
  Não é preciso que se tornem
  um bom vinho
  Para mim basta
  que sejam água!




          Dalva Tesainer Bonatto
       Porto Alegre, 19 de abril de 2005.
















quinta-feira, 31 de julho de 2014

Poesia #49

Ler

Abrir um livro
Pra ler
É como entrar numa floresta
Não sei,
Que bichos vou encontrar
Se vão me morder
Ou se vão me encantar
Não sei,
Se as feras soltas em mim
Vão saltar para o livro
E lutar
Não sei quem vai perder
Não sei quem vai ganhar
Mas o tempo
Esse bicho perdido
Vou achar


  Dalva Tesainer Bonatto
Porto Alegre, 30 de outubro de 2011


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Poesia #48

Reinvenção

REVISO as peças
Do quebra-cabeças
Encaixes perfeitos
REJUNTES sem frestas
Passagens estreitas
Arestas
Tento teoremas
Fórmulas químicas
Força centrífuga
Chaves polidas
Rios
REORGANIZO gavetas
Não mais em ordem alfabética
Sem taxionomia
Giro
REINVENTO a vida


                                                    Dalva Tesainer Bonatto
                                                      Porto Alegre, 27 de setembro de 2008

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Poesia #47

Gratidão
Na semana em que se comemora a Amizade, agradeço a todos que acessam meu blog.
Aos amigos que conheço e estão perto e aos amigos de longe, que sinalizam seus países no momento de suas leituras.
Aos amigos do Brasil.
Aos amigos da África do Sul, Alemanha, Bulgária, Chile, China, Espanha, Estados Unidos, Indonésia, Irlanda, Malásia, Portugal, Rússia, Ucrânia.
Aos poetas

Um grande abraço, com poesias e flores
           Dalva



        Friends

Nos dias de inverno frio
Da minha Terra gelada
Que fica na ponta do mapa
Se veste de branco a estrada
O minuano irritado
Encilha o cavalo alado
E anda longe, longe, longe
Mesmo sem ser convidado
Passa pelos telhados
E leva sempre emprestado
Uma roupa do varal
Desarruma os cabelos da floresta
E acha uma bela fresta
Pra entrar na minha janela
Ensaia uma sinfonia
E garante que qualquer dia
Vai tocar no carnaval
Já até pediu emprestado
A fantasia da chuva
Que sai de braços dados
Junto a um raio de sol
Mas o que me encanta mesmo
Na gelada Terra minha
É o calor que sempre tenho
Do fogo que não desdenho
Das mãos que tocam fadigas
Das bocas que falam cantigas
Nas rodas de chimarrão
Do verbo que evoca línguas
E nutre a alma de pão

                        Dalva Tesainer Bonattro
                  Porto Alegre, 16 de julho de 2014