sábado, 26 de abril de 2014

Poesia #39

Carla

       Para Carlinha, com amor, num dia muito especial

De olhos mui pretos
Rosada e fofinha
Nasceu num verão
A linda Carlinha
Por mais indeciso
Que alguém estivesse
Ela sabia:
o que quer que fizesse
Pequena ainda
Olhava o relógio
E, num grito a galope
Chamava a empregada
Sueí o xaópe!
Um dia foi ao dentista,
Nem sabia, certo falar
Queria ser odonto...
Odonto o quê?odontologista.
Brincou de panelinhas,
Cortou muitas roupinhas
E, cantava a Carlinha!
Olhava  Xuxa na TV
E, queria ser paquita
Aprendeu até balé.
Andou de patins,
Bicicleta e patinete.
Comeu todos os chicletes,
Guardados lá no armário.
Na festa da primavera
Com fitas, balões e charmosa
Andava a menina bem prosa
Sobre o carro cor de rosa.
Quando foi pro Alabama
Cedinho saiu da cama,
Pra chegar no avião.


Foi ver, como os astronautas
Sentiam a lua na mão.
E, liderava a Carlinha!
Um dia, adormeceu com o ursinho
E, acordou com o coração
Que dizia um carinho.
Se apaixonou a menina.
Sensível e sorridente
Mas,  parecia vertente
Toda vez que ela chorava.
E, chorava a Carlinha!
Curtiu todas as festas,
Aniversários, pagodes.
Entrou para a faculdade,
Sabia o quanto custava.
E, estudava a Carlinha!
Se formou, foi adiante,
Andou por tudo, o bastante.
Achou o que procurava.
Com olhos pretos brilhantes,
E aquele sorriso aberto,
Que há tempos  não se via,
Encontro aquela Guia,
Esperando a lotação.
Não ia de carro não!
Sabia o que fazia,
Sorriu com satisfação.
Vou  tratar dente de gente,
Vou trabalhar minha tia!

Um beijo da tia.                                
Dalva Tesainer Bonatto
Porto Alegre,03/10/04
                           




        

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Poesia #38

Para o santo guerreiro


Quero a pureza da lua
Que senti ainda crua
Num dia de céu aberto
Quero vê-la sempre nua
Com manto todo prateado
Porque sei que lá
Por certo
Na sombra da escuridão
Há um guerreiro escondido
Pra libertar meu dragão

     Salve, Jorge!

          Dalva Tesainer Bonatto

        Porto Alegre, 23 de abril de 2013

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Poesia #37

ANDES

Hoje te reverencio, para que sejas eterna assim como tua neve em mim!
Sexta-feira Santa, Jesus morre para renascer a qualquer momento em nossos corações.
                                             Dalva
Pelo teu corpo,
vi todas as impressões
das mãos que te esculpiram.
Tuas artérias,
vazias de sangue cristalino,
revelaram-me tua nudez
seca e árida de pão.
Tuas saliências
plasmaram-se em meu espírito,
e tive paz!
Meu sangue,
não mais era meu.
Tua água
escorria pelos meus dedos,
mas não mais te pertencia.
Num encontro único,
Sublime,
Imortal,
De corpo e alma.
Tatuei pra sempre,
No teu ventre rasgado,
Meu DNA
Ainda molhado!

                                Dalva Tesainer Bonatto

                    Santiago do Chile, 23 de março de 2005    





segunda-feira, 14 de abril de 2014

Poesia #36

Caminhos

Foram tantas as esquinas
Pelas quais passei
Tantos foram os caminhos
Que atravessei
Que nem na pedra
Nem na terra
TE encontrei
Foram tantas as viagens
Que até cansei
Mas nem assim
TE encontrei
Tantos foram os lugares
Que procurei
Que até nem sei
por onde andei
E de repente
Quando o sonho
Parecia acabado
E a vida cheia de imprevistos
Passeando assim
Lado a lado
Te coloca na minha frente
No meu caminho encantado
Descubro então
O poder da TUA presença
A vibração da TUA energia
Descubro TEU ser
És a luz
Que ilumina meu espaço
A força
Que solidifica tudo que faço
A noite, o dia a sorte
A vida,
A morte!
                                 Dalva Tesainer Bonatto
                       Porto Alegre,15 de junho de 1994


                                    

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Poesia #35

Coisas
       “Gosto de ficar na sombra das coisas
              no segredo delas, gosto
              Adomis- poeta árabe-81 anos-

Espio pelas janelas
pelas portas abertas
debaixo de escadas ocultas
na sombra das mesas
Entro em portões fechados
Procuro a essência
das coisas perdidas

Encontro encantos
de mistérios antigos
no bule de chá
na xícara de café
na bandeja desbotada
na cama desfeita

Descubro
Segredos guardados
das coisas em si


            Dalva Tesainer Bonatto
  Porto Alegre, 13 de setembro de 2013
         


quinta-feira, 3 de abril de 2014

Texto poético- Conto #7

                                 Brilho
                                                                 Para meu filho 


  Estava ali, estacionada numa pequena prateleira de canto, no alto da sala. Só saía de vez em quando, no verão, para receber um polimento e nesta época ela resplandecia todo o brilho do sol na sua própria luminosidade. Na imponência daquele altar, contava sua estória. Tinha algumas inscrições, já desgastadas pelo tempo, mas isto não tinha a menor importância. Do lado direito e abaixo de onde estava, abria-se uma janela de cor marrom, que mais servia para apoiar os pés do que para arejar a casa. Também no alto e ao lado, pequenos peixinhos acinzentados nadavam, cristalizados na parede branca.
  O jogo de futebol era animado, no campo de grama fresca e verdejante, e os meninos corriam atrás da bola como se ela fosse a última que seus pés sentiriam. Queriam o gol: brasileiros e argentinos, numa interminável copa do mundo. O time que ganhasse podia fazer a volta no quarteirão, exibindo o mais belo troféu das redondezas.
  Nesses momentos ela brilhava ainda mais e só voltava para o seu lugar depois de passar pelas mãos dos vencedores. Não pertencia a ninguém, mas era de todos ao mesmo tempo. A única exigência que o dono da casa fazia era de que ela fosse colocada sobre a prateleira, quando o campeonato terminasse.
 E assim se passaram muitas temporadas.

  Karl era recém casado, mas não deixava de lado seu esporte favorito: o basquete. Quando sua esposa abriu a porta, viu logo que ele estava mancando. Tinha torcido um dos dedos do pé num grande salto para arremessar a bola em direção à cesta. Deixou que ele se movimentasse lentamente apoiando-se no balcão que dava para a cozinha e contasse o que havia acontecido. Karl falava sem parar, explicando o motivo do machucado; a esposa ouvia paciente enquanto tirava, do interior da maleta, as roupas suadas que ele usara no jogo e que envolviam um objeto de metal, cor de ouro, com aspecto arredondado, que possuía uma tampa com finas hastes de folhas de louro na parte superior. Na base estava escrito: “Campeões de basquete-ball do Clube dos Cem”.
 Abaixo de tudo, a data que conferia a grandeza atemporal da taça: Fevereiro de 1930.


                               Porto Alegre, 28 de março de 2014
                                        Dalva Tesainer Bonatto