quinta-feira, 3 de abril de 2014

Texto poético- Conto #7

                                 Brilho
                                                                 Para meu filho 


  Estava ali, estacionada numa pequena prateleira de canto, no alto da sala. Só saía de vez em quando, no verão, para receber um polimento e nesta época ela resplandecia todo o brilho do sol na sua própria luminosidade. Na imponência daquele altar, contava sua estória. Tinha algumas inscrições, já desgastadas pelo tempo, mas isto não tinha a menor importância. Do lado direito e abaixo de onde estava, abria-se uma janela de cor marrom, que mais servia para apoiar os pés do que para arejar a casa. Também no alto e ao lado, pequenos peixinhos acinzentados nadavam, cristalizados na parede branca.
  O jogo de futebol era animado, no campo de grama fresca e verdejante, e os meninos corriam atrás da bola como se ela fosse a última que seus pés sentiriam. Queriam o gol: brasileiros e argentinos, numa interminável copa do mundo. O time que ganhasse podia fazer a volta no quarteirão, exibindo o mais belo troféu das redondezas.
  Nesses momentos ela brilhava ainda mais e só voltava para o seu lugar depois de passar pelas mãos dos vencedores. Não pertencia a ninguém, mas era de todos ao mesmo tempo. A única exigência que o dono da casa fazia era de que ela fosse colocada sobre a prateleira, quando o campeonato terminasse.
 E assim se passaram muitas temporadas.

  Karl era recém casado, mas não deixava de lado seu esporte favorito: o basquete. Quando sua esposa abriu a porta, viu logo que ele estava mancando. Tinha torcido um dos dedos do pé num grande salto para arremessar a bola em direção à cesta. Deixou que ele se movimentasse lentamente apoiando-se no balcão que dava para a cozinha e contasse o que havia acontecido. Karl falava sem parar, explicando o motivo do machucado; a esposa ouvia paciente enquanto tirava, do interior da maleta, as roupas suadas que ele usara no jogo e que envolviam um objeto de metal, cor de ouro, com aspecto arredondado, que possuía uma tampa com finas hastes de folhas de louro na parte superior. Na base estava escrito: “Campeões de basquete-ball do Clube dos Cem”.
 Abaixo de tudo, a data que conferia a grandeza atemporal da taça: Fevereiro de 1930.


                               Porto Alegre, 28 de março de 2014
                                        Dalva Tesainer Bonatto