Brilho
Para meu filho
Estava ali,
estacionada numa pequena prateleira de canto, no alto da sala. Só saía de vez
em quando, no verão, para receber um polimento e nesta época ela resplandecia
todo o brilho do sol na sua própria luminosidade. Na imponência daquele altar,
contava sua estória. Tinha algumas inscrições, já desgastadas pelo tempo, mas
isto não tinha a menor importância. Do lado direito e abaixo de onde estava,
abria-se uma janela de cor marrom, que mais servia para apoiar os pés do que
para arejar a casa. Também no alto e ao lado, pequenos peixinhos acinzentados
nadavam, cristalizados na parede branca.
O jogo de futebol era animado, no campo de grama fresca e verdejante, e os
meninos corriam atrás da bola como se ela fosse a última que seus pés
sentiriam. Queriam o gol: brasileiros e argentinos, numa interminável copa do
mundo. O time que ganhasse podia fazer a volta no quarteirão, exibindo o mais
belo troféu das redondezas.
Nesses momentos ela brilhava ainda mais e só voltava para o seu lugar
depois de passar pelas mãos dos vencedores. Não pertencia a ninguém, mas era de
todos ao mesmo tempo. A única exigência que o dono da casa fazia era de que ela
fosse colocada sobre a prateleira, quando o campeonato terminasse.
E
assim se passaram muitas temporadas.
Karl era recém casado, mas não deixava de lado seu esporte favorito: o
basquete. Quando sua esposa abriu a porta, viu logo que ele estava mancando.
Tinha torcido um dos dedos do pé num grande salto para arremessar a bola em
direção à cesta. Deixou que ele se movimentasse lentamente apoiando-se no
balcão que dava para a cozinha e contasse o que havia acontecido. Karl falava
sem parar, explicando o motivo do machucado; a esposa ouvia paciente enquanto
tirava, do interior da maleta, as roupas suadas que ele usara no jogo e que
envolviam um objeto de metal, cor de ouro, com aspecto arredondado, que possuía
uma tampa com finas hastes de folhas de louro na parte superior. Na base estava
escrito: “Campeões de basquete-ball do Clube dos Cem”.
Abaixo de tudo, a data que conferia a grandeza
atemporal da taça: Fevereiro de 1930.
Porto Alegre, 28 de março de 2014
Dalva
Tesainer Bonatto