sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Textos Poéticos #3

                                        A mesa

 Estava ali, com quatro pernas finas de canos descascados, meio enferrujados até, aparando uma tábua retangular amarelo claro. Tinha alguns riscos de caneta esferográfica, alguns recortes de estiletes, algumas marcas de tintas, mas mesmo assim era uma mesa. Antiga, desatualizada, desbotada, antiquada, mas era uma mesa. Estacionada na frente do quadro branco nem servia mais para apoiar os pinceis atômicos com os quais se escrevia; até mesmo o data show tinha seu próprio suporte. Ainda assim, era uma mesa. Quando os grupos se reuniam, ela ficava de lado, próxima a pia, o que dava a impressão de que seria utilizada. Mas, isto não acontecia. No entanto, ninguém a descartava; algum dia ainda serviria. Nem o professor sentava de lado sobre ela, preferia se acomodar no chão, junto aos alunos. Mesmo assim, apesar de tudo, ainda era uma mesa.
  Vozes femininas entraram na sala, estridentes, sorridentes, alegrando o ambiente. Procuraram palavras e elas, que estavam escondidas apareceram. Escorregaram pelas paredes, desprenderam-se das cortinas, caíram dos ventiladores, flutuaram no ar como bolhas de sabão, explodiram, se encontraram, se afastaram, se encostaram novamente; abriram asas e voaram pelos cantos; às vezes se ouvia prantos. Fugiram dos livros e como pombas aos bandos suspirando sobre o banhado, pousaram nas páginas brancas. Brincaram de quebra- cabeças, deram-se as mãos numa ciranda envolvente, procurando o melhor momento do encontro. Não precisaram de música, possuíam sons, não tinham cores, mas tons que definiam o movimento ondular dos pontos e das vírgulas. E, no instante final desta dança frenética, brotaram poemas do pó.
 As vozes então se acalmaram, transformaram-se em murmúrios e no lusco-fusco da sala só se ouvia passos. Quando finalmente acenderam as luzes, a mesa estava vestida. Era uma bela toalha de renda bordada, sobre a qual podiam-se ver pequenas xícaras azuis de porcelana chinesa.Flores amarelas e verdes contrastavam com as cores da toalha e davam um brilho especial aos diferentes tons de velas.Reinventada, a mesa estava radiante.Havia salgadinhos, docinhos, chocolates, presentes e um bolo de aniversário.
 Um sopro de vento deixou passar pela porta entreaberta, o perfume adocicado de cravo, canela e açúcar mascavo que impregnou o ambiente com a magia dos temperos indianos.E no espaço atemporal que transforma aquelas mulheres, todas as vezes que se encontram, elas celebraram a vida.

                                               Dalva Tesainer Bonatto
                                         Porto Alegre, 07 de agosto de 2013