A mesa
Estava
ali, com quatro pernas finas de canos descascados, meio enferrujados até,
aparando uma tábua retangular amarelo claro. Tinha alguns riscos de caneta
esferográfica, alguns recortes de estiletes, algumas marcas de tintas, mas
mesmo assim era uma mesa. Antiga, desatualizada, desbotada, antiquada, mas era
uma mesa. Estacionada na frente do quadro branco nem servia mais para apoiar os
pinceis atômicos com os quais se escrevia; até mesmo o data show tinha seu
próprio suporte. Ainda assim, era uma mesa. Quando os grupos se reuniam, ela
ficava de lado, próxima a pia, o que dava a impressão de que seria utilizada. Mas,
isto não acontecia. No entanto, ninguém a descartava; algum dia ainda serviria.
Nem o professor sentava de lado sobre ela, preferia se acomodar no chão, junto
aos alunos. Mesmo assim, apesar de tudo, ainda era uma mesa.
Vozes
femininas entraram na sala, estridentes, sorridentes, alegrando o ambiente.
Procuraram palavras e elas, que estavam escondidas apareceram. Escorregaram
pelas paredes, desprenderam-se das cortinas, caíram dos ventiladores, flutuaram
no ar como bolhas de sabão, explodiram, se encontraram, se afastaram, se
encostaram novamente; abriram asas e voaram pelos cantos; às vezes se ouvia
prantos. Fugiram dos livros e como pombas aos bandos suspirando sobre o
banhado, pousaram nas páginas brancas. Brincaram de quebra- cabeças, deram-se
as mãos numa ciranda envolvente, procurando o melhor momento do encontro. Não
precisaram de música, possuíam sons, não tinham cores, mas tons que definiam o
movimento ondular dos pontos e das vírgulas. E, no instante final desta dança
frenética, brotaram poemas do pó.
As vozes
então se acalmaram, transformaram-se em murmúrios e no lusco-fusco da sala só se
ouvia passos. Quando finalmente acenderam as luzes, a mesa estava vestida. Era
uma bela toalha de renda bordada, sobre a qual podiam-se ver pequenas xícaras
azuis de porcelana chinesa.Flores amarelas e verdes contrastavam com as cores
da toalha e davam um brilho especial aos diferentes tons de velas.Reinventada,
a mesa estava radiante.Havia salgadinhos, docinhos, chocolates, presentes e um
bolo de aniversário.
Um sopro
de vento deixou passar pela porta entreaberta, o perfume adocicado de cravo,
canela e açúcar mascavo que impregnou o ambiente com a magia dos temperos
indianos.E no espaço atemporal que transforma aquelas mulheres, todas as vezes
que se encontram, elas celebraram a vida.
Dalva Tesainer Bonatto
Porto
Alegre, 07 de agosto de 2013