quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Textos poéticos #2

 Carta a um computador

Estou te escrevendo com minha caneta tinteiro que ganhei quando tinha quatorze anos. Com ela aprendi a caligrafia de todas as letras para aplicá-las mais tarde quando fosse necessário; graças a isto, meus dedos são hábeis nos trabalhos manuais, posso tricotar, fazer crochê, pregar botões, costurar e posso também abrir o zíper para ir ao banheiro.Não tenho LER.Sei que também podes elaborar tipos diferentes de letras e por ser muito parecida com a minha escolho sempre ,a tua Monotype Corsiva, quando estou contigo.
Sei que me ensinas, tudo que preciso saber; quando quero fazer um bolo, tens sempre uma receita útil, mas com certeza,sou eu quem mistura os ingredientes e liga o forno.Quando o bolo está pronto, não é contigo que compartilho o prazer de comê-lo.Passeias comigo por muitos lugares mas não conheces a sensação de colocar o tênis e caminhar pelo meu bairro numa tarde de outono, quando as folhas secas caem sobre o desgastado chão enchendo-o- de cor amarelo ouro. Me mostras na tua tela a perfeição de um parto, mas só eu posso ter a emoção do filho no colo .Organizas agendas,tabelas, processos,mas só eu posso arrumar as gavetas do meu armário. Podes fazer cálculos, estabelecer parâmetros, semelhanças e diferenças, mas só eu sei o tempo certo da chegada do verão, quando as andorinhas, aos bandos, pousam nas copas das árvores. Conheces a vida do mais remoto descendente da dinastia Merovinge, mas não sabes o que se passa no coração do meu vizinho.
Ao longo dos anos, ocorreram metamorfoses para aprimorar os genes dos seres vivos e assim fazê-los evoluir, na forma física e espiritual. A tecnologia também avançou muito nos últimos séculos; descobrimos o telefone, o rádio e a televisão. Descobrimos planetas, estrelas.Descobrimos a luz. Mas ainda acendo velas para meus santos.

Nota:
Se eu enviasse este texto por e-mail não poderia conhecer a expressão dos olhares, nem o som das vozes tampouco o afeto dos abraços.


                             Dalva Tesainer Bonatto

                      Porto Alegre, 07 de março de 2012