Carta a um computador
Estou te escrevendo com minha caneta tinteiro
que ganhei quando tinha quatorze anos. Com ela aprendi a caligrafia de todas as
letras para aplicá-las mais tarde quando fosse necessário; graças a isto, meus
dedos são hábeis nos trabalhos manuais, posso tricotar, fazer crochê, pregar
botões, costurar e posso também abrir o zíper para ir ao banheiro.Não tenho
LER.Sei que também podes elaborar tipos diferentes de letras e por ser muito
parecida com a minha escolho sempre ,a tua Monotype Corsiva, quando estou
contigo.
Sei que me ensinas, tudo que preciso saber; quando
quero fazer um bolo, tens sempre uma receita útil, mas com certeza,sou eu quem mistura
os ingredientes e liga o forno.Quando o bolo está pronto, não é contigo que
compartilho o prazer de comê-lo.Passeias comigo por muitos lugares mas não
conheces a sensação de colocar o tênis e caminhar pelo meu bairro numa tarde de
outono, quando as folhas secas caem sobre o desgastado chão enchendo-o- de cor
amarelo ouro. Me mostras na tua tela a perfeição de um parto, mas só eu posso
ter a emoção do filho no colo .Organizas agendas,tabelas, processos,mas só eu
posso arrumar as gavetas do meu armário. Podes fazer cálculos, estabelecer
parâmetros, semelhanças e diferenças, mas só eu sei o tempo certo da chegada do
verão, quando as andorinhas, aos bandos, pousam nas copas das árvores. Conheces
a vida do mais remoto descendente da dinastia Merovinge, mas não sabes o que se
passa no coração do meu vizinho.
Ao longo dos anos, ocorreram metamorfoses para
aprimorar os genes dos seres vivos e assim fazê-los evoluir, na forma física e
espiritual. A tecnologia também avançou muito nos últimos séculos; descobrimos
o telefone, o rádio e a televisão. Descobrimos planetas, estrelas.Descobrimos a
luz. Mas ainda acendo velas para meus santos.
Nota:
Se eu enviasse este texto por e-mail não
poderia conhecer a expressão dos olhares, nem o som das vozes tampouco o afeto
dos abraços.
Dalva Tesainer
Bonatto
Porto Alegre, 07 de março
de 2012