quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Textos Poéticos #4

                        Este conto não é poético, mas genético...  
                           Dia de Todos os Santos

  Naquele ano, o mês de novembro se anunciara um pouco antes, quando os fortes ventos já haviam causado estragos nas plantações e as casas mais afastadas das cidades ficaram totalmente destruídas. Ela arrumou uma pequena sacola de cor amarelo ouro e colocou dentro algumas peças de roupas que poderia precisar. Não tinha a vaidade que permeava a maioria das mulheres da sua idade, mas era forte, segura de si, de idéias criativas e muito correta; esta era sua maior virtude, a honestidade. Era dia de finados e resolvera que não ficaria em casa. Havia perdido o pai há poucos meses e naquela ocasião, não se permitira chorar sua partida, apenas cumprira os rituais do enterro e pronto. Queria estar só, ficar só com seus pensamentos, queria organizá-los para uma nova etapa de sua vida. Estava afastada do marido há muitos anos e quando se divorciou, na divisão dos bens, herdou a sogra como sempre dizia, que era sua eterna preocupação. Viviam em casas separadas apenas por uma cerca de metal que possuía um pequeno portão para facilitar a passagem, já que a sogra em idade avançada, estava doente e precisava de cuidados constantes.Mas, neste dia sairia de casa e tomaria o rumo da praia. Lá ficaria bem, com suas lembranças de infância, com o cantar dos pássaros e a rede balançando numa das poucas árvores que ainda restavam. Com a casa vazia de gentes, poderia sonhar, com vozes antigas,com caras amigas, poderia ouvir o pai, contando estórias, cantando trechos de músicas que ninguém conhecia, mas que afagavam a alma e envolviam o coração, como aquele algodão doce, cor de rosa, que ganhara na Igreja São Pedro, no dia da Crisma. O pai, energia pulsante, sempre presente em todos os momentos, vibrava com tudo, o pouco era muito para ele; um italiano que havia vindo do outro lado do mundo, com uma mão na frente e outra atrás, mas tinha construído, com suas próprias mãos aquela casa, que era uma beleza, para seus filhos e netos. Não se podia falar da aparência externa da casa, pois quando ficou pronta, há quase cinquenta anos, pintou-a de amarelo com as aberturas azuis, restos de tinta que havia ganhado de um amigo pintor que trabalhara nos postos da policia rodoviária, mas pelo conteúdo que permanecia nas paredes, junto com os cupins, mesmo fora da estação. A casa tinha um cheiro de pai e mãe que agregava a família, um sabor de festa que unia os amigos, não mais havia ninguém por ali, mas ela ficava muito feliz, toda vez que colocava a grande chave amarela, pendurada no chaveiro do batman, na porta de entrada da casa.
 Chegou ao final da tarde, por segurança abriu apenas a janela da cozinha. Aos poucos, sentindo-se mais confiante, abriu também a porta da frente. Ligou a televisão e assistiu uma reportagem sobre animais selvagens, o que a deixava mais relaxada. Tentou dormir; não conseguiu. Sentou-se na cama, abriu a carteira e começou a relacionar os cheques, que precisava fazer para pagar as contas.Contou também o dinheiro que restara da viagem. Contar dinheiro era o que mais gostava; estava no sangue, no seu DNA. Havia herdado esta característica do pai: homem forte, rude, mas com idéias avançadas para sua época. Fora criado pela mãe, mulher de aparência simples, descendente de uma baronesa que morava num castelo nos Alpes. Sabia como se comportar à mesa, comia com garfo e faca e usava adequadamente todos os copos.Contador de dinheiro e contador de estórias, era o que seu pai, mais gostava de fazer.As filhas herdaram dele este tesouro.Uma trabalhava no setor financeiro da empresa, no centro da cidade e a outra contava estórias.
  O pequeno carro vermelho estacionou em frente ao portão, fechado com um cadeado. Uma jovem loira, aparentando cerca de trinta anos desceu. Ela vestia calças pretas e uma blusa estampada caída para o lado, mostrando uma tatuagem colorida, o que a deixava com um charme especial. Com delicadeza apertou na campainha; depois, ansiosa, começou a chamar e por fim gritava. Não obteve resposta. Entrou novamente no carro e foi para beira da praia. Caminhou um pouco pelo calçadão, encontrou alguns conhecidos, mas não quem procurava. O sol já estava alto e o dia escaldante, naquela hora. Marcava trinta e dois graus no grande relógio da plataforma. Ela sentia a cabeça explodir, pensou em tomar um comprimido, mas lembrou-se que não havia nenhum na bolsa. Foi até a rua principal, entrou em todos restaurantes, sorveterias, lojas, procurou nos bancos do canteiro central, não a viu. De longe observou a vitrine com sapatos coloridos, correu para lá. Nada. Na angustia do desespero ligou para a tia, que lhe deu algumas pistas de onde encontrá-la, mas também não obteve sucesso. Tentou novamente o número conhecido, nenhuma resposta, não era novidade, tinha certeza que do outro lado ninguém atenderia, o telefone estava sempre descarregado.
 A filha, querendo surpreender a mãe , foi surpreendida pelo inesperado, por uma destas surpresas que a vida oferece todos os dias e que as pessoas não se dão conta de que ela se movimenta como um rio, sem curso certo, sem tempo e sem hora marcada.Então, quando atravessou a ponte pensando em desistir, viu a mãe com um pequeno caniço nas mãos, ao lado de outras pessoas pescando sardinhas.


                                                Dalva Tesainer Bonatto

                                    Porto Alegre, 04 de novembro de 2012