quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Textos Poéticos #6

                                               Fevereiro 40°c
                                                  “Muitos coincidiam na lembrança de que era uma manhã
                                                                     radiante com uma brisa de mar que chegava através dos bananais,
                                                                        como seria de esperar que fosse um bom fevereiro daquela época.”.
                                                                                 Gabriel García Márques- Crônica de uma morte anunciada

Outro dia ouvi na televisão que este mês de fevereiro foi o mais quente desde 1958.Voltei no tempo para localizar a casa da avenida Paraná com a Viena, onde passei, junto com minha família toda minha infância.Era uma casa muito grande para uma menina de oito anos e morávamos todos juntos, desde que meus avós chegaram de Trento na Itália. A princípio construíram uma pequena casa de madeira com quatro peças, para abrigar seis filhos que trouxeram junto com a bagagem e que viveram ali até casar.
 Meu pai quando casou, não podia comprar uma casa, então acrescentou mais três peças naquela já existente.E a casa foi crescendo; depois meu tio também casou, espichando-a ainda mais.Sempre lembro de me ver naquele casarão pintado de cinza escuro por fora e verde escuro por dentro e penso logo num monstro herbívoro pré-histórico. Certa vez, perguntei a meu pai o porquê daquelas cores e ele me disse que o Nono era quem escolhia as tintas pois eram mais baratas e de mais fácil manutenção.
 Nesta época, tínhamos um belo quintal com parreiras por todos os lados o que de certa forma amenizava as cores escuras da casa,comemos uvas, destes parreirais por longos anos, e quando a safra era muito boa, as mulheres da família faziam sucos, geléias, bolos e chimias. Nada era desperdiçado.Comemos também todos tomatinhos da horta da minha Nona, que ficava ao lado da casa. Só agora, depois de tanto tempo, é que descobri que já havia sido apresentada aos tomates cereja. Brincamos com bonecas e fizemos comidinhas debaixo de três plátanos maravilhosos que ainda moram no mesmo endereço, acho até, que se tornaram patrimônio histórico da rua. Não tínhamos piscina mas tomávamos muitos banhos de mangueira, enquanto o Nono não chegava do trabalho; ele ficava furioso vendo a criançada gastar água daquela maneira.Meu Nono era um homem muito rude, hoje sei que foi por tudo que passou na Áustria onde nasceu e na Itália, onde lutou na 1ª Guerra Mundial, além disso, teve que fugir com a mulher e os filhos para não enfrentar a 2ª Guerra. Vieram para o Brasil porque a minha Nona já havia vindo passear, de navio, com a família dela e sempre dizia que aqui era o paraíso, o lugar ideal para criar os filhos.Ele saia muito cedo para trabalhar e sempre chegava no mesmo horário da Tecelagem Fiateci, cujo prédio ainda existe na rua Voluntários da Pátria.
Às vezes a brincadeira era diferente, enchíamos o tanque de água e ficávamos de molho até murchar. Numa dessas ocasiões, em que haviam lançado no mercado o sabão em pó; uma maravilha para lavar roupas,também queríamos experimentar.Enchemos então o tanque e despejamos nele, quase toda caixa de sabão, o que nos valeu umas boas palmadas.Nos enfiamos dentro e ficamos curtindo a espuma que era tanta que invadiu toda área de serviço (naquele tempo não tinha esse nome sofisticado).Nos divertimos muito naquela tarde e quando pensamos em sair de lá descobrimos que havia faltado água.É claro que não tínhamos caixa d’água, tivemos que nos secar e esperar até o outro dia com o sabão no corpo.Espirramos muito e tivemos muitas coceiras, neste tempo, ainda nem sabiam o que era alergia.
  Não tenho certeza se este foi o verão de 1958, mas é o verão que guardo na lembrança, com carinho, num lugar muito especial.

                                                                   Dalva Tesainer Bonatto
                                                                   Porto Alegre,13 de fevereiro de 2012