Fevereiro 40°c
“Muitos
coincidiam na lembrança de que era uma manhã
radiante com uma brisa de mar que chegava através dos bananais,
como seria de esperar que fosse um bom fevereiro daquela época.”.
Gabriel García Márques- Crônica de uma morte
anunciada
Outro dia
ouvi na televisão que este mês de fevereiro foi o mais quente desde 1958.Voltei
no tempo para localizar a casa da avenida Paraná com a Viena, onde passei,
junto com minha família toda minha infância.Era uma casa muito grande para uma
menina de oito anos e morávamos todos juntos, desde que meus avós chegaram de
Trento na Itália. A princípio construíram uma pequena casa de madeira com
quatro peças, para abrigar seis filhos que trouxeram junto com a bagagem e que
viveram ali até casar.
Meu pai quando casou, não podia comprar uma
casa, então acrescentou mais três peças naquela já existente.E a casa foi
crescendo; depois meu tio também casou, espichando-a ainda mais.Sempre lembro
de me ver naquele casarão pintado de cinza escuro por fora e verde escuro por
dentro e penso logo num monstro herbívoro pré-histórico. Certa vez, perguntei a
meu pai o porquê daquelas cores e ele me disse que o Nono era quem escolhia as
tintas pois eram mais baratas e de mais fácil manutenção.
Nesta época, tínhamos um belo quintal com
parreiras por todos os lados o que de certa forma amenizava as cores escuras da
casa,comemos uvas, destes parreirais por longos anos, e quando a safra era
muito boa, as mulheres da família faziam sucos, geléias, bolos e chimias. Nada
era desperdiçado.Comemos também todos tomatinhos da horta da minha Nona, que
ficava ao lado da casa. Só agora, depois de tanto tempo, é que descobri que já
havia sido apresentada aos tomates cereja. Brincamos com bonecas e fizemos
comidinhas debaixo de três plátanos maravilhosos que ainda moram no mesmo
endereço, acho até, que se tornaram patrimônio histórico da rua. Não tínhamos
piscina mas tomávamos muitos banhos de mangueira, enquanto o Nono não chegava do
trabalho; ele ficava furioso vendo a criançada gastar água daquela maneira.Meu
Nono era um homem muito rude, hoje sei que foi por tudo que passou na Áustria
onde nasceu e na Itália, onde lutou na 1ª Guerra Mundial, além disso, teve que
fugir com a mulher e os filhos para não enfrentar a 2ª Guerra. Vieram para o
Brasil porque a minha Nona já havia vindo passear, de navio, com a família dela
e sempre dizia que aqui era o paraíso, o lugar ideal para criar os filhos.Ele
saia muito cedo para trabalhar e sempre chegava no mesmo horário da Tecelagem
Fiateci, cujo prédio ainda existe na rua Voluntários da Pátria.
Às vezes
a brincadeira era diferente, enchíamos o tanque de água e ficávamos de molho
até murchar. Numa dessas ocasiões, em que haviam lançado no mercado o sabão em
pó; uma maravilha para lavar roupas,também queríamos experimentar.Enchemos
então o tanque e despejamos nele, quase toda caixa de sabão, o que nos valeu
umas boas palmadas.Nos enfiamos dentro e ficamos curtindo a espuma que era
tanta que invadiu toda área de serviço (naquele tempo não tinha esse nome
sofisticado).Nos divertimos muito naquela tarde e quando pensamos em sair de lá
descobrimos que havia faltado água.É claro que não tínhamos caixa d’água,
tivemos que nos secar e esperar até o outro dia com o sabão no corpo.Espirramos
muito e tivemos muitas coceiras, neste tempo, ainda nem sabiam o que era
alergia.
Não tenho certeza se este foi o verão de
1958, mas é o verão que guardo na lembrança, com carinho, num lugar muito
especial.
Dalva
Tesainer Bonatto
Porto Alegre,13 de fevereiro de 2012